A alimentação na rede pública de ensino

Enviada em 16/09/2020

O poder da merenda escolar

No livro “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, é retratada a fuga de uma família de nordestinos da exploração e da seca presentes no sertão. Nesse sentido, a trama foca nos desafios desses migrantes que lutam pela sobrevivência durante o trajeto infindável até a cidade grande, rodeados pela escassez de alimentos e pela miséria. Fora da ficção, é fato que a problemática da fome, alertada por Ramos, é marcante no cenário brasileiro, enfatizando, pois, a alimentação na rede pública de ensino como fator atenuante dessa mazela social. Sendo assim, é mister entender a corrupção como um entrave ao combate contra a desnutrição e o papel da merenda escolar como propagadora da educação alimentar.

Em primeiro plano, menciona-se o desvio de verba pública como um obstáculo para a efetivação das refeições nos centros de ensino. Diante disso, há o conceito de “Anomia social”, de Durkheim, o qual reforça que a crise nos pilares da sociedade ameaça a integridade do povo. Logo, a desmoralização de políticos, frequentemente envolvidos em crimes de corrupção, expõe um atentado à prosperidade da comunidade. Dessarte, escândalos que exibem o roubo do dinheiro público destinado à refeição infantil nas escolas, como o da “máfia da merenda”, de 2018, evidenciam a ambição individual como um empecilho para a democratização do acesso à alimentação e para a manutenção de uma vida plena.

Além disso, destaca-se como a merenda nos centros educacionais exerce grande influência na formação de indivíduos mais saudáveis. Nesse contexto, tem-se o filósofo Rousseau, que afirma a infância como o período de criação da personalidade de um ser, sendo as experiências dessa fase moldadoras do caráter. Dessa forma, a alimentação na rede pública de ensino, ao promover o contato da criança com ingredientes ricos em nutrientes, consolida um ideário popular nesses futuros adultos acerca da importância de uma dieta equilibrada. Assim, é lícito postular que as refeições escolares, além de combater a fome, contribuem para a composição de uma geração mais saudável e consciente.

Portanto, medidas hão de ser tomadas, a fim de atestar o direito à alimentação nas escolas brasileiras. Primeiramente, a Secretaria Nacional de Justiça, defensora das garantias constitucionais, deve punir, de forma mais rígida, episódios de corrupção. Isso seria possível por meio da parceria com o poder legislativo e asseguraria a chegada de verbas públicas às entidades destinadas. Ademais, o Ministério da Saúde, a partir da cooperação com instituições educadoras, precisa contratar nutricionistas e afirmar cardápios que satisfaçam a necessidade nutricional das crianças, honrando a promoção do bem-estar infantil proposto pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar. Desse modo, garantir-se-ia uma vida distante daquela do livro “Vidas Secas”.