A alimentação na rede pública de ensino
Enviada em 16/11/2021
Desde a Antiguidade Clássica, Aristóteles defendia que o indivíduo detém de uma característica fundamental à manutenção da humanidade: a capacidade de conviver em harmonia. Todavia, os brasileiros estão distantes da civilidade pregada pelo filósofo, haja vista a problematização da alimentação nas escolas públicas do país. Com efeito, a solução pressupõe que se combatam não só a negligência governamental, mas também a desigualdade que assola a nação.
A princípio, cabe pontuar o desmazelo do Estado como causa dessa problemática. Conforme a Constituição Federal de 1988, promulgada por Ulysses Guimarães, é direito infantil viver livre da fome e da miséria, sendo do Governo o papel de promoção de tal prerrogativa. Entretanto, as insuficientes políticas públicas fazem com que uma massa de estudantes de redes públicas não tenham acesso a uma alimentação nutritiva ou até mesmo, por falta de fornecimento estatal, não se alimentam dentro das instituições educacionais e, assim, esse direito constitucional é ferido. Dessa forma, há o fortalecimento da premissa do jornalista Gilberto Dimenstein, evidenciada em seu livro “O Cidadão de Papel”, que “tais leis residem tão somente na teoria”.
Nessa perspectiva, pontua-se a disparidade econômica como influente no revés. De acordo com o Índice de Gini, medida que classifica o grau de desigualdade de um país, o Brasil está entre as dez nações mais desiguais do mundo. Nesse sentido, essa cruel desigualdade, muitas vezes, faz com que familiares matriculem crianças e jovens nas escolas não com o objetivo de estimular o aprendizado, mas de terem como refeição diária a merenda escolar que, em quase todos os casos, infelizmente, não apresenta recomendações e acompanhamento de profissionais da saúde. Nesse sentido, é notório que, parte da população tem aceitado essas condições críticas oferecidas sem nem sequer questionar, fato que pode ser exemplificado a partir dos estudos da filósofa Hannah Arendt, visto que devido a um processo de massificação, as pessoas perdem a capacidade de discernir o errado do correto.
Depreende-se, portanto, a urgência de ações interventivas com o fito de amenizar essa questão. Para isso, o Ministério da Saúde, responsável pela manutenção e administração da saúde pública do país, deve, por meio de investimentos, estabelecer um plano nacional de merenda escolar, mapeando as regiões mais afetadas pela desnutrição e elaborando um cardápio com acompanhamento nutricional à ser implementado às escolas, a fim de tornar a situação da população mais digna. Além disso, o Ministério da Educação, deve, por meio de discussões e palestras efetivas, no ambiente escolar, discorrer acerca da importância da alimentação balanceada desde a infância. Somente assim, será possível garantir a convivência harmônica defendida por Aristóteles.