A arquitetura hostil como mecanismo de exclusão social

Enviada em 30/10/2023

Na obra “A República”, o filósofo Platão idealiza uma cidade livre de desordens, em que os cidadãos trabalham em conjunto para superar os obstáculos. Todavia, ao se fitar a atual sociedade brasileira, percebe-se o oposto dos ideais platônicos, uma vez que a arquitetura hostil funciona como um mecanismo de exclusão social. Sendo assim, tem-se a negligência governamental e o silenciamento social como contribuintes para a continuidade dessa problemática.

Sob esse viés, vale ressaltar a ineficiência estatal em garantir o bem comum. Desse modo, de acordo com o filósofo Thomas Hobbes, o Estado tem o dever de garantir que os cidadãos desfrutem de direitos indispensáveis, como a dignidade e a equidade. Entretanto, a prática é distinta da teoria, já que há a manutenção de políticas de planejamento urbano que priorizam o lucro de construtoras em detrimento do bem-estar social. Com isso, há a disseminação da exclusão social, pois pessoas em situações de rua, por exemplo, além de não terem acesso à moradia, se encontram sem lugar para ao menos repousar.

Ademais, outro vetor recai na indiferença social quanto ao enfrentamento e a sensibilização desse mecanismo segregador. Dessa forma, conforme a filósofa Hannah Arendt, em sua teoria da Banalidade do Mal, devido à massificação, a sociedade ficou composta por indivíduos alienados e incapazes de realizar julgamentos morais. Nesse contexto, nota-se a normatização da marginalização social, que se evidencia pela carência de ações da comunidade para combater a arquitetura hostil – como campanhas de identificação e documentação de espaços que seguem esse design.

Portanto, sendo a exclusão social advinda da arquitetura hostil uma preocupação à coletividade, motivada pela omissão governamental e social, urge que o Ministério das Cidades, órgão responsável pela política habitacional brasileira, selecione de forma mais assertiva as licitações de construções que serão benéficas para a sociedade, por meio da análise minuciosa, como também da potencialização das notificações das edificações hostis existentes, a fim de que haja a mitigação desses mecanismos de segregação. Com essas ações, os brasileiros poderão chegar perto das convicções de Platão.