A arquitetura hostil como mecanismo de exclusão social

Enviada em 30/10/2023

“O bicho, meu Deus, era um homem.” Sob autoria de Manuel Bandeira, o último verso do poema “O Bicho” equipara o ser humano a um animal. Ao transcender a obra, a arquitetura hostil afeta, de forma direta, às pessoas em situação de rua e se entrelaça com o poema ao acentuar a segregação expressa na denúncia em forma de versos feita pelo autor sobre o imenso abismo social entre os que têm e os que não. A partir desse contexto, torna-se necessário analisar os principais motivadores, tanto econômico quanto social, para o avanço da problemática.

Diante desse cenário, é válido pontuar como a principal causa econômica a manutenção de uma espécie de “utopia política”. Isso acontece pois há, no mundo moderno, a defesa da ideia de um país socioeconomicamente perfeito, amparado em um discurso de sociedade ideal, quando, na verdade, observa-se grandes e antigas desigualdades. Segundo o conceito de “teoria da crise” elaborado pelo sociólogo Boaventura de S. Santos, existe a falsa noção de regresso em uma sociedade que, de fato, nunca avançou. Assim, o uso da arquitetura hostil traz essa ilusória sensação de avanço ao passo que marginaliza, ainda mais, as camadas populares economicamente vulneráveis.

Além disso, o nacionalismo simbólico se expressa de maneira direta como um entrave social. Isso ocorre porque existe a justificativa de um patriotismo a partir dos símbolos nacionais, como a bandeira e o hino, mas não há uma visão efetivamente coletiva para a diminuição das desigualdades sociais. De acordo com o historiador José Murilo de Carvalho, mesmo na Proclamação da República, não houve uma participação popular efetiva. Nesse sentido, a segregação gerada pela utilização de elementos para restringir certos comportamentos demonstra a ausência da sensação de união de um povo contra os problemas socias. Dessa forma, cria-se uma República pouco republicana.

Portanto, é fundamental que o Estado Federal articule formas de combate ao problema.Tal iniciativa ocorrerá por meio da implantação de um Projeto Nacional de Inclusão, o qual prevê multas para áreas urbanas que preservem esse estilo de arquitetura a fim de reverter esse dinheiro na manutenção e construção de novos albergues. Afinal, necessita-se romper com a vinculação que Bandeira faz na obra.