A arquitetura hostil como mecanismo de exclusão social

Enviada em 31/10/2023

“E pra aumentar o meu tédio, eu nem posso olhar pro prédio que eu ajudei a fazer”. A letra da música “Cidadão” de Zé Geraldo, revela a discriminação sofrida por um trabalhador de classe baixa diante de um espaço público e elitista. No contexto atual, essa marginalização evoluiu de tal forma que até mesmo culminou na criação de uma arquitetura hostil em ambientes públicos com o objetivo de segregar indivíduos. Logo, uma hostilidade proveniente de princípios capitalistas e de um governo alheio.

Essa mazela emerge, primeiramente, devido ao capitalismo e suas premissas pouco inclusivas. “Aos pobres não se perdoa sequer sua pobreza” foi o que disse o Papa Francisco diante dessa questão. De fato, desde os primórdios da sociedade, estamos imersos em um sistema econômico onde o lucro importa mais que o conforto daqueles que necessitam, e onde as desigualdades estão intrínsecas à ele - acarretando, então , na criação de um ambiente onde apenas as classes mais abastadas são bem vindas. Assim, a falta de um desenvolvimento econômico inclu-

sivo agrava ainda mais as desigualdades.

Por sua vez, há também uma falha governamental que intensifica essa problemática. O artigo 6° da Constituição garante, em tese, o direito à moradia. Entretanto, isso não se concretiza na prática, pois se o Estado fornecesse devidamente tal acesso à habitação, o número de indivíduos em situação de rua não seria tão extenso, e recorrer à elementos urbanos hostis não seria necessário. Logo, essa negligência intensifica a marginalização e o isolamento social já enfrentado por esses grupos.

Repensar nos impactos da arquitetura hostil nas classes desfavorecidas, portanto, é essencial. Desse modo, urge que o poder público intensifique medidas que viabilize a locação social, através da utilização de imóveis vazios ou subutilizados, de maneira a fornecer uma moradia digna àqueles que necessitam. Ademais, é necessário que empresas privadas conciliem iniciativas de inclusão, por meio do fornecimento de mais empregos, para que cidadãos menos abastados tenham uma fonte de renda que lhes concedam a oportunidade de conquistar uma moradia, e assim sair dessa atmosfera de hostilidade nas ruas.