A arquitetura hostil como mecanismo de exclusão social
Enviada em 04/03/2024
Apesar da Grécia Antiga ser celebrada pelos feitos a favor da democracia, os únicos protegidos pelas leis eram homens atenienses com mais de 21 anos. Nos dias hodiernos, o Estado também não assegura os direitos de todos; visto que a arquitetura hostil é um mecanismo legitimado de exclusão social. Desse modo, é necessário identificar tanto a impessoalidade das relações modernas, quanto os efeitos da dominação social como propulsores desse fenômeno.
Ademais, de acordo com a teoria da “Sociedade Líquida” de Bauman, as interações interpessoais características da sociedade atual são cada vez mais frágeis devido ao poder do individualismo sob o imaginário popular. Dessa maneira, é possível entender o porquê da arquitetura hostil ser tão incentivada: em um meio individualista, a falta de empatia e a desumanização dos pobres ganham força em forma de segregação espacial. Assim, esse mecanismo violento de gentrificação trata aqueles menos abastados economicamente como desmerecedores de desfrutar os direitos previstos no Artigo 6º da Constituição Brasileira, como a moradia e o lazer. Logo, as estruturas pontiagudas ou desconfortáveis instaladas nos locais públicos afasta esses indivíduos da cidade e de tudo o que deveria ser, de fato, para todos. Analogamente, o poema “O Bicho” de Manuel Bandeira ilustra a realidade de miséria de pessoas em situação de rua, que, de tão desumanizadas pela população, são mais semelhantes aos animais do que aos humanos.
Além disso, segundo a teoria da “Microfísica do Poder” de Foucault, a dominação exercida pela classe dominante encontra meios de permear a sociedade e exercer o poder sob as outras classes de maneira silenciosa. Por conseguinte, a arquitetura hostil é uma maneira de criar barreiras entre diferentes classes sociais sem que seja necessário proibir a circulação de pessoas em situação de rua naquele local: a estadia delas é fisicamente impossível.
Então, diante do exposto, faz-se ratificada a correlação da aceitação da arquitetura hostil com os valores deturpados da sociedade atual. A fim de garantir a cidadania prevista na Lei Federal, é dever do Estado, conjuntamente a instituições de promoção da inclusão social (principalmente aquelas com o intuito de arrecadar doações e, assim, promover a empatia), potencializar a eficácia dos albergues, com o intuito de acolher mais pessoas em situação de rua, para que possam ter melhores possibilidades de vida e criar uma cartilha para alavancar a participação da população como um todo nessa luta pela igualdade de direitos. Só assim será possível atualizar a democracia grega para hoje e resolver o real problema - a desigualdade social - escondido atrás da arquitetura hostil e ajudar aqueles que, infelizmente, não possuem a voz que lhes deveria ser um direito.