A banalização da prescrição de psicofármacos na infância

Enviada em 29/06/2021

Na série “O Gambito da Rainha”, a órfã Beth Harmon é exposta ao uso de psicofármacos, ainda na infância, pelos médicos responsáveis por seu cuidado. Na vida adulta, Harmon segue dependente dos medicamentos, enfrentando uma luta para libertar-se do vício. Analogamente, percebe-se que, na conjuntura do Brasil contemporâneo, há uma banalização da prescrição de psicofármacos na infância. A partir de uma análise da problemática, nota-se que ela é consequência de desestrutura familiar e negligência governamental, fazendo-se necessário um debate acerca do revés.

Nessa perspectiva, é lícito destacar a estrutura familiar como fator que poderia evitar a banalização dos psicofármacos na infância. Porém, por razões como desinformação e despreparo, as substâncias são vistas como a melhor alternativa na maioria dos casos. Sabe-se que os medicamentos causam dependência e efeitos colaterais perigosos para as crianças. Em sua obra “Ensaio Sobre a Cegueira”, José Saramago propõe uma reflexão sobre a cegueira cultural, ética e moral que se propaga na sociedade hodierna. Assim, a utilização de psicofármacos na infância é um dos impasses tomados pela cegueira do corpo social, visto que continua a ser ignorado pelo âmbito familiar. Consequentemente, é essencial superar esses paradigmas que prejudicam as crianças.

Outrossim, é possível somar aos aspectos supracitados a ineficácia governamental em conter o avanço da banalização do uso das substâncias em questão. De acordo com a Constituição, a saúde é um direito comum aos cidadãos. Entretanto, ao considerar o uso irresponsável de medicamentos que alteram o comportamento e o humor, é nítido que tal direito não é assegurado, uma vez que os remédios podem causar sequelas irreparáveis, como perda de memória e incoordenação motora. Sob esse viés, cabe abordar o conceito de cidadania de papel, de Gilberto Dimenstein. Segundo Dimenstein, a Carta Magna existe apenas no papel, e os direitos listados no documento mais importante do país são ilusórios. Destarte, entende-se o assunto como uma problemática cuja resolução deve ser de imediato, dado que refuta a Constituição do Brasil.

Em síntese, são fundamentais ações que visem modificar o quadro do uso descuidado de psicofármacos na infância. Logo, a máquina governamental federal deve promover projetos para informar os pais e os tutores sobre as desvantagens do uso das substâncias, que apresentam riscos para o crescimento saudável das crianças, por meio de palestras, campanhas e divulgações elaboradas por profissionais especializados, apresentadas em espaços escolares e nos mecanismos midiáticos como TV e redes sociais, com o objetivo de garantir o direito constitucional e proteger as crianças. Com as medidas, o Brasil não terá crianças vítimas do uso dos psicofármacos, como Beth Harmon.