A banalização da prescrição de psicofármacos na infância

Enviada em 13/07/2021

Atualmente, um dos tópicos mais polêmicos acerca da saúde infantil é a questão da medicalização em casos relativos ao comportamento e desvios de atenção. No modelo socioeconômico vigente, soluções rápidas para tratar uma anomalia são as principais opções dos pacientes ou responsáveis. Essa prática imediatista esclarece o aumento exponencial do uso indiscriminado de psicotrópicos por jovens e crianças nos últimos anos. Atrelado a esse aumento, há também o processo de normalização, em que torna-se cada vez mais aceitável e usual prescrever psicoativos para lidar com quadros de aprendizagem ou hiperatividade. Tal banalização da prescrição de psicofármacos na infância se deve à ausência de diagnósticos baseados no contexto de vida do paciente e, ainda, à falta de investimentos estatais em tratamentos alternativos.

Em primeira análise, nota-se que a maioria dos diagnósticos que envolvem problemas de aprendizagem e disciplina infantil são feitos sem exames laboratoriais, sendo identificados por meio de conversas com psicólogos/psiquiatras. Dessa maneira, cabe ao profissional de saúde analisar a situação e indicar o melhor tratamento à criança. Segundo Jairo Werner, psiquiatra formado pela Universidade Federal Fluminense, a comunidade médica ainda possui uma concepção muito mecanicista sobre a saúde, ou seja, se o jovem apresenta comportamentos fora do padrão ou dificuldades nos estudos, ele será considerado a causa desses impasses e será medicado. Muitas vezes, a medicação pode ser evitada com uma análise baseada em aspectos da vida do paciente, como o ambiente familiar e escolar. Dessa forma, percebe-se que mudar o processo de diagnóstico possibilita a busca por tratamentos alternativos mais realistas e livres de medicação.

Além disso, deve-se ressaltar que a falta de políticas públicas que invistam em tratamentos sem o uso de drogas psicoativas pelos jovens e crianças, corrobora com a banalização de sua prescrição indiscriminada. Garantir o bem-estar dos brasileiros é uma obrigação estatal, ao negligenciar o consumo desenfreado de medicamentos na infância, o Estado não só descumpre seu dever como também põe vidas em risco, pois tal consumo pode gerar dependências ao usuário. Sendo assim, torna-se necessário reverter esse cenário de banalização e descaso governamental.

Portanto, uma medida eficaz para combater esses obstáculos é a criação de novas diretrizes quanto ao diagnóstico de patologias neurológicas; por meio de uma reforma na grade curricular dos cursos de psiquiatria e psicologia, contemplando aspectos socioculturais do paciente. Tal medida será criada pelo Ministério da Educação e aplicada em todas as universidades do país. Logo, o uso irregular de medicamentos na infância será contido por um processo de diagnose menos mecanicista.