A banalização da prescrição de psicofármacos na infância

Enviada em 19/07/2021

Aristóteles - expoente filósofo - definiu, na Grécia Antiga, o conceito de Isonomia: assegurar às pessoas oportunidades iguais, considerando suas condições diferentes. Todavia, mesmo após centenas de anos, a ideologia aristotélica não alcança todos os cidadãos, sobretudo em áreas em que a prescrição de psicofármacos na infância se tornou banalizada, uma vez que a diversidade comportamental é, erroneamente, tratada como doença. Com efeito, as crianças que tomam medicamentos sem necessidade clínica estão sujeitas ao controle comportamental e à marginalização.

Diante desse cenário, Michel Foucault - autor da obra “Microfísica do Poder” - denuncia a mentalidade das instituições de ensino, as quais passaram a agir como mecanismos de padronização comportamental. Nesse viés, o fenômeno descrito por Foucault se mostra presente na educação infantil e se manifesta na forma da recomendação de psicofármacos, na medida em que muitos professores associam o suposto baixo desempenho acadêmico do aluno a algum tipo de “déficit de atenção”. No entanto, na maioria dos casos, a recomendação precoce de tratamentos químicos não está relacionada com o sistema neurológico da criança, mas sim com os problemas na metodologia de ensino. Ou seja, é mais fácil - ironicamente - culpar o jovem ao invés de inovar o sistema educacional. Assim, enquanto as escolas camuflarem os seus projetos acadêmicos ineficientes, os pequenos jovens continuarão sendo vítimas do uso indevido de medicamentos psicológicos.

Ademais, Daniela Arbex - escritora do livro “Holocausto brasileiro” - retrata os maus-tratos da história do Hospital Colônia de Barbacena, em que 60 mil indivíduos, rotulados como “fora dos padrões sociais”, morreram em tratamentos para a suposta “cura da loucura”. De maneira análoga, percebe-se que a ideologia do maior hospício do Brasil permanece no mundo contemporâneo, já que diversas crianças, popularmente consideradas “agitadas” e “impulsivas”, são diagnosticadas com Hiperatividade, mas - em muitas situações - são apenas meninos e meninas curiosos com o mundo. Logo, não é razoável que, embora almeje praticar a Isonomia de Aristóteles, a sociedade insista  em marginalizar cidadãos que não apresentem os seus “padrões de normalidade”.

Para que garotos e garotas, portanto, sejam tratados de maneira digna, as escolas devem modificar seus planejamentos acadêmicos, por meio da criação de projetos pedagógicos, como oficinas e minicursos, que ofereçam um ambiente favorável ao aprendizado das matérias escolares. Essa iniciativa, em parceria com campanhas da Organização Mundial da Saúde a favor da não medicação precoce de doenças neurológicas, teria a finalidade de romper com a banalização da prescrição de psicofármacos na infância, de sorte que as crianças deixem de ser marginalizadas socialmente.