A banalização da prescrição de psicofármacos na infância

Enviada em 20/07/2021

Aristóteles - filósofo grego - definiu, na Antiguidade, o conceito de Isonomia: assegurar às pessoas oportunidades iguais e considerar suas condições diferentes. Todavia, mesmo após centenas de anos, a ideologia aristotélica não alcança todos os cidadãos, sobretudo em áreas em que a prescrição de psicofármacos na infância se tornou banalizada, uma vez que a diversidade comportamental é, erroneamente, tratada como doença. Com efeito, as crianças que tomam medicamentos sem necessidade clínica estão sujeitas ao controle comportamental e à marginalização.

Diante desse cenário, Michel Foucault - autor da obra “Microfísica do Poder” - denuncia a mentalidade das instituições de ensino, as quais passaram a agir como mecanismos de padronização comportamental. Nesse viés, o fenômeno descrito por Foucault se mostra presente na educação infantil e se manifesta na forma da recomendação, sem razão médica, de psicofármacos, na medida em que muitos professores associam o suposto baixo desempenho acadêmico do aluno a algum tipo de déficit de atenção. No entanto, na maioria dos casos, a recomendação de tratamentos químicos não está relacionada com o sistema neurológico da criança, mas sim com os problemas na metodologia de ensino. Ou seja, é mais fácil - ironicamente - culpar o jovem ao invés de inovar o sistema educacional. Assim, enquanto as escolas camuflarem os seus projetos acadêmicos ineficientes, os pequenos jovens continuarão a ser vítimas do uso indevido de medicamentos psicológicos.

Ademais, José Saramago - escritor do livro “Ensaio sobre a Cegueira” - revelou, através de uma analogia, a doença da contemporaneidade: a cegueira frente aos erros individuais da população. De maneira análoga, percebe-se que a “patologia” descrita por Saramago está relacionada com o comportamento de muitos pais no século XXI, dado que muitas famílias, por medo de admitir os erros que comentaram na educação dos filhos, associam o comportamento das crianças, a exemplo da falta de obediência e da falta de concentração, a doenças mentais, como a Hiperatividade. Logo, não é razoável que, embora almejem assegurar uma boa qualidade de vida às crianças, os pais insistam em negar seus próprios erros e sujeitar os menores a tratamentos psicológicos sem necessidade.

Portanto, para que garotos e garotas sejam tratados de maneira digna, as escolas devem modificar seus planejamentos acadêmicos, por meio da criação de projetos pedagógicos, como oficinas e minicursos, que ofereçam um ambiente favorável ao aprendizado das matérias escolares. Essa iniciativa, em parceria com campanhas da Organização Mundial da Saúde a favor da não medicação precoce de doenças neurológicas, teria a finalidade de romper com a banalização da prescrição de psicofármacos na infância. Feito isso, as crianças não serão mais marginalizadas socialmente.