A banalização da prescrição de psicofármacos na infância

Enviada em 22/07/2021

A Constituição Federal, promulgada em 1988, assegura o acesso à saúde como direito de todo cidadão e dever do Estado. Entretanto, essencialmente, em função do curto tempo de convivência entre pais e filhos, problemas comportamentais ,normais na faixa etária infantil, estão passando a ser confundidos com problemas psicológicos. Tal situação influencia no tratamento indevido com psicofármacos, afetando negativamente a saúde desse grupo. Desse modo, faz-se válido analisar a falta de tempo dos pais e a medicalizção da infância, fatores que corroboram com a situação.

Primeiramente, vale ressaltar a falta de tempo para convivência em família. Essa situação é retratada no livro " Bom dia Verônica", do autor brasileiro Raphael Montes, no qual a policial Verônica, priorizava o trabalho em detrimento da família, não dando a atenção necessária a seus filhos. Apesar de fictícia, essa situação condiz com a realidade, visto que, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ( IPEA), 44,4% dos entrevistados tem dificuldades para se desligar do trabalho mesmo após o fim da jornada diária. É evidente que, por passarem mais tempo com a mentalidade ligada ao trabalho, tarefas antes delegadas aos pais, como lidar com mudanças comportamentais dos filhos, serão negligenciadas ou delegadas a profissionais de saúde.

Em consequência, a medicalização da infância se faz cada vez mais presente, incentivando a prescrição inadequada de psicofármacos. Entende-se por medicalização o processo que transforma, artificialmente, problemas não médicos, como a falta de atenção em sala de aula, normal na fase da infância, em questões médicas.  Esse processo é evidenciado no doumentário " Take your Pills", em que, certa parte, retrata a prescrição do psicofármaco Aderal, usado no tratamento de pessoas com Transtorno de Déficite de Atenção,  a crianças que não possuíam o transtorno, por recomendação dos professores. É inadmisível que essa situação permaneça pesente, visto que, a prescrição desses medicamentos a crianças saudáveis leva à banalização da receita de psicofármacos na infância, além de, ainda segundo o documentário, ser prejudicial à saúde desse grupo.

Sendo assim, é dever do Ministério do Trabalho, por meio de psicólogos, a criação de uma política pública. Essa medida governamental deve conceder consultas psicológicas gratuitas em centros de atendimento ao trabalhador, que proporcionem aos adultos uma mentalidade mais tranquila, refletindo, assim, em uma melhor convivência em família e em uma maior atenção aos problemas comportamentais das crianças, sem a necessidade de um encaminhamento médico. Espera-se que, dessa forma, a banalização da prescrição de psicofármacos deixe de ser uma realidade no Brasil.