A banalização da prescrição de psicofármacos na infância
Enviada em 17/11/2021
O documentário “Take Your Pills” retrata a automedicação e o consumo excessivo de fármacos. Na obra, a prática tem como objetivo o aumento da produtividade, mas ocasiona diversos efeitos negativos, como a crescente dependência dos medicamentos e os problemas de saúde. De maneira análoga, a medicação na infância também ocorre de forma exagerada e sem a confirmação de sua necessidade por meio de exames médicos. Com isso, muitas crianças são submetidas a altas doses de substâncias artificiais, o que compromete sua estabilidade física e emocional. Tal problemática persiste devido à mercantilização da saúde e à falta de informações.
Em primeiro lugar, é importante destacar que a indústria de remédios tem o retorno financeiro como seu principal objetivo. Sob essa ótica, segundo Karl Marx, no capitalismo, tudo se torna mercadoria. Desse modo, há grande esforço para aumentar o lucro, utilizando-se de promessas de efeitos milagrosos para que as pessoas adquiram tais produtos, ainda que não precisem dele. Nesse viés, os pais aparecem como o alvo mais fácil, já que se preocupam com seus filhos e sempre buscam formas de ajudá-los. Por conseguinte, crianças são medicalizadas além do necessário e, assim, apresentam problemas de saúde, como distúrbio renal, e se sentem insuficientes, já que passam a pensar que só conseguirão se manter calmos ou ter concentração na escola com o auxílio dos medicamentos.
Além disso, em segundo plano, a desinformação também é causa da situação. Nesse âmbito, o advento da internet e dos meios de comunicação de massa permitiu que os indivíduos adquirissem informações a qualquer hora. Dessa forma, ao pesquisarem sobre sintomas, eles encontram listas de possíveis patologias e, como consequência, até mesmo simples problemas são reduzidos a doenças. Logo, questões envolvendo aprendizagem e comportamento infantis, as quais poderiam ser resolvidas com ajuda de professores particulares e terapia, começam a ser tratadas com muitos remédios. À vista disso, ocorre a violação do Estatuto da Criança e do Adolescente, o qual defende direitos como a saúde e a dignidade para pessoas dessa faixa etária.
Observa-se, portanto, que os motivos citados corroboram para o aumento da banalização da prescrição de fármacos na infância. Destarte, é necessário que o Governo, no papel do Ministério da Saúde, combata o excesso de medicação para que as crianças possam desfrutar de boa saúde e de integridade. Isso deve ser feito por meio da restrição da venda de remédios, com a exigência da apresentação de receita médica e de exames que comprovem sua necessidade, além do uso campanhas midiáticas que alertem os riscos da prática para a população. Somente com essas medidas será possível desvincular da realidade infantil os efeitos vistos na obra “Take Your Pills”.