A banalização da prescrição de psicofármacos na infância
Enviada em 26/07/2021
Na série O Gambito da Rainha, a personagem Beth Harmon, após ficar órfã, é levada a um orfanato onde as crianças recebem medicamentos tranquilizantes. Porém, o que era para ser um amenizador de sentimentos ruins acaba por interferir diretamente em outras emoções, visto que Beth cria uma dependência nessas pílulas. Assim como na ficção, na realidade uma grande parcela de crianças estão sob efeitos de psicofármacos, muitas vezes de uso desnecessário e que os impedem de levar uma vida mais saudável. Nesse sentido, é necessário analisar as causas dessa problemática, dentre as quais estão o imediatismo moderno e a falta de estrutura nas intituições escolares.
Primeiramente, percebe-se que o uso indiscriminado de medicamentos para o sistema psíquico está conectado a falta de paciência na sociedade moderna. Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, atualmente as pessoas vivem na chamada modernidade líquida, onde todos os resultados são esperados com impaciência e de forma imediata. Assim, quando se pensa no desenvolvimento infantil as etapas não são lineares e cada criança tem seu próprio parâmetro, fato que muitas vezes não é respeitado, já que muitas delas, quando apresentam um comportamento considerado além da normalidade, são tratadas precipitadamente com psicofármacos.
Além disso, muitas escolas não possuem estrutura que auxilie a família na busca por soluções que não considerem o uso de medicamentos como ponto de partida. Como exemplo ideal, na série Jane The Virgin, o aluno Matteo é diagnosticado com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade a partir das observações de seu comportamento na escola. Dessa forma, após a equipe pedagógica conversar com sua família, sua mãe decidiu seguir tratamentos mais graduais e menos invasivos. Porém, na realidade brasileira nem todas as instituições escolares contam com uma equipe multiprofissional com psicopedagogos ou psicólogos que façam a primeira tomada de decisão junto à familia e criança, o que acarreta com o encaminhamento a psiquiatras que receitam logo de início o uso de psicofármacos.
Portanto, para que se diminua a banalização da prescrição desses medicamentos às crianças, é necessário que algumas medidas sejam tomadas. Para isso, as Secretarias de Educação de cada município devem contratar profissionais psicopedagogos ou psicólogos por meio de concurso público para atuarem junto a equipe pedagógica, no intuito de tomar soluções mais orgânicas na vida dos alunos. Além do mais, esses profissionais devem auxiliar professores e família nas formas de como lidar com cada comportamento infantil, afim de retardar o uso de medicamentos enquanto isso for possível.