A banalização da prescrição de psicofármacos na infância
Enviada em 02/09/2021
De acordo com a Constituição de 1988, todos os cidadãos possuem o direito à saúde. Entretanto, a realidade não condiz com tal cenário ideal, uma vez que cada vez mais crianças estão sujeitas à prescrição exagerada de psicofármacos. Esse quadro de banalização é ocasionado principalmente pela medicalização da infância e tem como principal consequência a abafação das origens do problema.
Vale ressaltar, em primeiro lugar, que a medicalização da infância contribui para a persistência dessa banalização. Tal conceito diz respeito ao enquadramento de diferenças comportamentais como doenças, apenas porque não correspondem aos padrões sociais esperados. Sob essa ótica, é plausível abordar a rotulação de diversas crianças com dificuldades de aprendizado e de relacionamento, como portadoras de algum transtorno mental, a exemplo do TDAH. Consequentemente, a fim de normatizar as condutas consideradas desviantes pela medicalização e suprimir os sintomas, promove-se o uso indiscriminado de psicofármacos na infância.
Por conseguinte, a prescrição inadequada e precoce pode ocasionar a ocultação das causas reais dos desvios comportamentais, sejam elas sociais ou escolares. Isso ocorre, porque tais medicamentos levam ao tamponamento do sujeito, tendo em vista a atuação dos psicoativos diretamente no sistema nervoso central. Sob essa ótica, há dificuldade de acessar clinicamente as raízes do problema, as quais determinam a necessidade de medicação ou de terapêuticas alternativas. Nesse sentido, vale recorrer à série canadense “Nova Amsterdã”, na qual uma criança é sujeita a diversas medicações antidepressivas, para solucionar seus problemas escolares. Contudo, após ser desintoxicada e fazer terapia, percebeu-se que o motivo para tais atitudes foi a morte recente do pai. Dessa forma, depreende-se a necessidade de analisar o contexto educacional e social, e não apenas os sintomas isolados.
Portanto, a fim de superar a banalização da administração de psicofarmacológicos a crianças, urge que o Ministério da Saúde implemente campanhas publicitárias – de caráter informativo e conscientizador – sobre a medicalização do comportamento infantil. Essas ações se concretizarão por meio de vídeos e publicações nas redes sociais que expliquem quais são os sintomas exatos de doenças mentais que exigem medicamentos, destinando-se principalmente aos professores e aos responsáveis. Concomitantemente, o mesmo Ministério deve ofertar consultas psicológicas gratuitas nas escolas por meio da contratação de psicoterapeutas, com a finalidade de analisar as verdadeiras causas dos desvios comportamentais. Dessa maneira, a medicação só será prescrita para aqueles que realmente apresentem um diagnóstico patológico. Feito isso, o direito a saúde será devidamente garantido aos pequenos cidadãos, assim como proposto pela Constituição Cidadã.