A banalização da prescrição de psicofármacos na infância

Enviada em 02/09/2021

Na minissérie “O gambito da rainha”, é contada a história da prodígio de xadrez, Beth Harmon, que perdeu a mãe quando criança e viveu em um orfanato até ser adotada. Como forma de controlar o comportamento dos órfãos, a instituição dava-lhes tranquilizantes diariamente, o que fez com que Beth virasse dependente e abusasse dos fármacos. Embora seja uma ficção, a série alerta para a banalização da prescrição de psicofármacos na infância, uma vez que a medicação excessiva pode causar problemas, dentre eles a dependência química e a inibição do comportamento natural do ser humano, como agitação e timidez, que muitas vezes são erroneamente associados a alguma síndrome.

Em primeira análise, é importante destacar que, com o aumento de diagnósticos de transtornos psíquicos em crianças, a prescrição de remédios para tratamento tem sido cada vez maior. Como consequência, o uso indiscriminado dos psicofármacos pode causar problemas sérios para o paciente, como a dependência química. Exemplarmente, Beth Harmon aprende a manipular os tranquilizantes para obter prazer e passa a tomar doses cada vez maiores, até ter uma overdose no orfanato. Quando maior, a prodígio teve de lutar contra o vício em álcool e antidepressivos, enquanto tentava ser campeã mundial de xadrez. Com isso, nota-se que a banalização da prescrição desses remédios possui consequências graves para o indivíduo, visto que o efeito deles no cérebro pode levar ao vício, como aconteceu com a protagonista da série.

Ademais, o comportamento considerado anormal da criança, como agitação, faz com que o adulto busque amparo na medicalização e, assim, consiga controlá-la. Conforme o filósofo Byung Chul-Han aborda em seu livro “Sociedade do cansaço”, o discurso atual é baseado em uma constante busca pela perfeição irreal. Por conseguinte, adultos recorrem a medicamentos para corrigir comportamentos de crianças que fogem do ideal perfeito.  Porém, tal ação é muito prejudicial para o desenvolvimento delas, pois os remédios privam-nas de sua personalidade e podem causar efeitos colaterais que deixarão sequelas para o resto da vida, como depressão e ansiedade, em função de um desiquilíbrio químico causado pela medicação.

Portanto, a fim de combater a prescrição indiscriminada de psicofármacos para crianças no Brasil, cabe ao Ministério da Saúde, responsável pela saúde pública do país, divulgar informações sobre as consequências dessa classe de remédios na vida das pessoas que começam a tomá-los no início da vida, por meio de propagandas em redes sociais e na televisão, meios fáceis de comunicação com a população brasileira. Desse modo, os pais poderão adotar uma postura mais crítica quando a seus filhos forem prescritos medicamentos para tratar transtornos psíquicos.