A banalização da prescrição de psicofármacos na infância
Enviada em 12/09/2021
O documentário “Take your pills”, da Netflix, retrata o crescente número de jovens dependentes de medicamentos psicoestimulantes para realizar atividades cotidianas, como estudar. Analogamente, o uso de remédios sem patologias identificadas, para qualquer obstáculo estudantil, é muito recorrente. Nesse contexto, surge a banalização da prescrição de psicofármacos na infância, por fatores como a medicalização da subjetividade e a sociedade do desempenho. São prementes, pois, estratégias de implementação de tratamentos alternativos e métodos de ensino mais lúdicos para crianças.
É patente ressaltar, em primeira instância, a medicalização da subjetividade como alicerce para a banalização da preceituação de medicamentos psicológicos na infância. Nesse sentido, vale destacar a médica brasileira Nise da Silveira, uma doutora que lutou contra os tratamentos convencionais e optou por tratar seus pacientes por meio da arte. Entretanto, na contemporaneidade, os profissionais de saúde costumam tratar desvios de comportamento e individualidades inerentes ao desenvolvimento humano como doenças. Diante disso, muitas crianças podem tornar-se dependentes de psicofármacos e isso traduz-se em problemas de saúde pelo excesso de remédios e em dependência de outros produtos químicos. A normalização da inclusão de medicamentos psicotrópicos, assim, compromete as vivências e a saúde dos jovens.
Outrossim, a sociedade do desempenho banaliza a prescrição de psicofármacos. Nesse viés, Byung-Chul Han descreve em seu livro, “Sociedade do Cansaço”, o imediatismo por resultados e o excesso de competitividade do homem pós-moderno. Da mesma forma, a urgência por grandes resultados incentiva a receitar e o usar remédios desnecessários fisiologicamente. Isso porque, as pequenas agitações e diferenças no tempo de raciocínio e aprendizado não são aceitas numa sociedade em que todos estão numa constante luta para serem os melhores e os mais produtivos, sem o entendimento de que a desconcentração e cansaço momentâneos são normais. Logo, é inegável que os valores da sociedade de desempenho fomentam a banalização da prescrição de remédios psicoativos.
Infere-se, portanto, que a banalização da prescrição de psicofármacos é fruto da medicalização da subjetividade e da sociedade do desempenho. Desse modo, é basilar que o Conselho Federal de Medicina, em parceria com o Ministério da Educação, promova seminários educativos, em suas plataformas digitais, mediante mesas redondas, sobre a implementação de novos métodos de ensino em escolas e de tratamentos alternativos, com o fito de descomplicar o relacionamento das crianças com o mundo e com o estudo sem o apoio desnecessário de medicamentos. Destarte, as crianças poderão superar o cenário de dependência química do documentário “Take your pills”.