A banalização da prescrição de psicofármacos na infância
Enviada em 16/09/2021
No livro “A invenção de Hugo Cabret”, Hugo se sente incompreendido por seu tio, que passa a criá-lo após a morte de seu pai. Da mesma forma, devido a banalização da prescrição de psicofármacos na infância, muitas crianças, assim como Hugo, se sentem incompreendidas. Dessa maneira, cabe analisar a tentativa de adequar as crianças ao mundo adulto e a falsa impressão de solução que os remédios transmitem como causas dessa problemática.
Sob esse viés, nota-se que a inserção dos mais novos no mundo dos adultos pode gerar a banalização do uso de psicofármacos para crianças. Acerca disso, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990, tem o objetivo de defender os direitos das crianças, inclusive o direito a uma infância digna. Todavia, uma que vez que há uma tentativa de tratar o modo natural das crianças como algo anormal, a partir da visão de pessoas já formadas socialmente, não ocorre o respeito à infância previsto no ECA. E, com isso, mais diagnósticos de transtornos como autismo, TDHA, entre outros que também não possuem exames laboratoriais, são feitos, já que a sociedade enxerga a criança pela sua óptica de adulto e, assim, mais remédios são receitados excessivamente.
Ademais, percebe-se que o uso de remédios na sociedade cria uma sensação de aparente solução para os transtornos mentais, o que causa a banalização da prescrição de psicofármacos na infância. Sobre esse ponto, o termo “isonomia”, do filósofo grego Aristóteles, diz respeito à necessidade de se adequar às diferenças do próximo, para garantir mais justiça. Entretanto, esse conceito não se realiza na vida dos mais novos, tendo em vista que os psicofármacos, por abrandarem os sintomas dos transtornos, são vistos como a melhor alternativa de tratamento, porém não são a solução mais completa, pois não abrangem todas as necessidades de compreensão, como na isonomia, de uma criança que utiliza remédios. Desse modo, a banalização dessas medicações é consequência da preferência pela facilidade de tratamento do que as outras necessidades das crianças, que buscam apoio e compreensão.
Portanto, diante da banalização da prescrição de psicofármacos na infância, o Ministério da Saúde, órgão do Poder Executivo, deve agir. Por isso, esse deve exigir, para que um diagnóstico de transtorno mental seja aceito, a avaliação da criança por mais de um profissional. Isso deve ser feito por meio do pedido de comprovação das consultas com esses, com laudos e exames necessários. E isso tudo, a fim de que os responsáveis tenham conhecimento de que, muitas vezes, seus filhos estão apenas sendo crianças e não precisam de medicamentos e, também, para que os remédios só sejam receitados para os que realmente necessitam.