A banalização da prescrição de psicofármacos na infância
Enviada em 13/10/2021
O historiador Yuval N. Harari defende que a realidade tecnológica está proporcionando aspectos culturais que o Homo sapiens não está apto a enfrentar. Dito isso, uma grande questão em voga no Brasil é a medicação, geralmente psicotrópica, administrada sem critérios a crianças, fato consonante com a teoria defendida por Harari, pois essa necessidade de medicar “distúrbios” corresponde à inabilidade dos responsáveis de lidar com realidades comuns à infância, mas dissonantes da “sociedade do desempenho”, focada em produtividade e eficiência.
Sendo assim, muitos dos medicamentos prescritos por pessoas leigas atrapalham o desenvolvimento orgânico dos jovens, os quais carecem de atenção, estímulos, regras e tudo que está se tornando impraticável dentro da lógica de consumo e produção atual. Ademais, como defende Byung-Chul Han, no livro “Sociedade do cansaço”, os indivíduos pautam cada vez mais a existência a partir da busca pelo máximo desempenho, no menor intervalo possível, o que acarreta insatisfação pessoal. Logo, como este é um fenômeno global, é sintomático que os adultos, vítimas e algozes de sua “performance”, como disse Han, direcionem tal preocupação para as crianças.
Outrossim, o diagnóstico impróprio e indiscriminado de transtornos psicológicos em crianças confere consequências inimagináveis para os jovens indivíduos e para a sociedade. Todavia, esse comportamento está intrínseco na cultura brasileira há muito, como retrata o artigo “O perfil da automedicação no Brasil”, por Paulo Sérgio, em que é preocupante a compulsão dos cidadãos de prescindir de assistência médica para tratar problemas de saúde. Dessa forma, infelizmente, torna-se natural medicar os menores com psicofármacos perigosos muitas vezes incabíveis e desnecessários, o que alimenta o ciclo da autoprescrição e pior, compromete o bem-estar físico e psicológico dos futuros adultos – que confrontam a difícil realidade dos adultos.
Destarte, com base nos argumentos acima, compete ao Ministério da Saúde, em parceria com a mídia, controlar a administração indiscriminada de psicofármacos, bem como prevenir os indivíduos sobre os efeitos negativos. Isso pode ser feito por meio de um controle maior da Agência Nacional de Vigilância Sanitária sobre as receitas e a distribuição de medicamentos nas farmácias, a fim de que mecanismos burocráticos direcionem os reponsáveis aos profissionais competentes, os quais irão atestar e alertar sobre a necessidade ou não da administração dos comprimidos. Além disso, campanhas midiáticas devem ser criadas a fim de conscientizar a sociedade sobre o comportamento das crianças e quando há a necessidade real de procurar assistência externa, promovendo um sentimento de controle sobre a criação das crianças, como Harari afirmou ser indispensável para o bem-estar social.