A banalização da prescrição de psicofármacos na infância

Enviada em 31/10/2021

No filme “It”, a mãe de umas das personagens dá para o filho inúmeros remédios por acreditar que ele possui alguma patologia. Essa situação, infelizmente, não restringe-se ao plano ficcional, uma vez que muitas crianças são submetidas a medicamentos destinados ao tratamento de transtornos psicológicos em razão da confusão no que se refere aos sintomas de tais doenças, algo que ocasiona malefícios à saúde desses indivíduos. Desse modo, faz-se necessária a análise do assunto.

Primeiramente, cabe destacar que a desinformação é um dos fatores do uso sem necessidade de medicamentos psiquiátricos. Nesse sentido, como ilustra o documentário “Take Your Pills”, a inquietude de crianças saudáveis são comumente relacionadas a patologias mentais. Logo, a ausência de políticas públicas por parte do Estado que objetivem elucidar as diferenças no que tange os comportamentos inerentes à fase infantil, como impulsividade e desatenção, e os reais sintomas de transtornos de hiperatividade, fomenta a submissão de jovens a remédios para tratar doenças que não possuem.

Outrossim, é válido ressaltar que o contato desde cedo com psicofarmácos causa danos imensuráveis. Nesse sentido, como afirmou o filósofo inglês John Locke, na obra “Ensaio”, as pessoas são moldadas a partir daquilo que vivenciam. Sob esse viés, convém salientar que disponibilizar ainda na infância remédios psiquiátricos resulta dependência, uma vez que é imposto a esses jovens que um comportamento disciplinado é consequência do uso de substâncias químicas, logo, ocorre necessidade desses indivíduos de, na fase adulta, recorrer somente a recursos medicamentosos em situações de estresse em razão de acreditarem ser a única forma de obter concentração.

Urge, portanto, que o Ministério da Saúde, mediante incentivos fiscais e em parceria com psicológos, institua propagandas em canais televisivos - meio de comunicação em massa - que expliquem de maneira sucinta os sintomas de transtornos neurológicos e porque não devem ser confundidos com o comportamento comum de inquietação das crianças, a fim de que esses dois assuntos não sejam mais relacionados e o uso equivocado de medicamentos psíquicos em jovens seja evitado. Assim, espera-se que a dependência química no contexto adulto seja reduzida.