A banalização da prescrição de psicofármacos na infância
Enviada em 27/10/2021
Gregório de Matos – expoente do Barroco brasileiro – ficou conhecido como “Boca do inferno” por fazer duras críticas à sociopolítica soteropolitana, bem como às demais áreas da Colônia. Paralelamente, se o autor estivesse presente no Brasil contemporâneo, avaliaria a recorrência do uso dos psicofármacos na infância do país, seja pela função do sistema educacional nesse contexto, seja pelas consequências dessa prática na formação do indivíduo. Dessa forma, fatos devem ser ponderadoras e medidas precisam ser tomadas, a fim de amenizar a adversidade em questão. Nessa perspectiva, é relevante ter conhecimento de que, desde os seus primórdios, a república brasileira consolidou-se sobre uma lógica positivista, isto é, a metodologia sociológica que aplica as Ciências da Natureza nas Humanas, a partir da demarcação do tempo nas atividades antropológicas e da aplicação de medidas generalistas. Sob esse viés, vale saber que as particularidades de cada indivíduo são abandonadas, uma vez que a sociedade é analisada como um único organismo. Nesse sentido, evidencia-se que os serviços do Estado não se distanciaram dessa postura, visto que até mesmo a educação do país preza pela padronização, ao invés da construção de um cidadão ativo e consciente. Desse modo, esse sistema de ensino, além de impossibilitar a formação completa do sujeito, negligencia as necessidades individuais e, assim, proporciona uma conjuntura excludente, já que baseia-se em receitas prontas de aprendizagem ao, consequentemente, induzir a utilização de saídas ineficazes – como o uso não prescrito de psicotrópicos para o desempenho - por aqueles que não conseguem alcançá-las. Posto tudo isso, percebe-se a necessidade de providências que mudem a realidade discutida. Além disso, dado que é fatídica a influência do comportamento pedagógico, outro determinante nessa problemática são as consequências do emprego desnecessário dos fármacos neurológicos nas crianças. Sobretudo, é essencial dizer que o modelo de atenção à saúde predominante no Brasil é o médico-hegemônico, o qual caracteriza-se pela prescrição exagerada e/ou indevida de fármacos, ao abster métodos dinâmicos – tais como terapia, atividades lúdicas e mudanças de hábitos - quando possíveis. Nessa lógica, é válido relembrar que TDAH é uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a qual recebe tratamento medicamentoso quando necessário e deve ser diagnosticada com cuidado devido aos efeitos negativos do mal uso desses. Logo, é perceptível uma conjuntura a ser rompida, haja vista a recorrência de crianças que, de acordo com o Ministério da Saúde, são diagnosticadas erroneamente pelo fato de que medicar é mais prático do que trabalhar e desenvolver as fases do crescimento infantil.