A banalização da prescrição de psicofármacos na infância
Enviada em 17/11/2021
“Saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente a ausência de doença”. Tal definição, publicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), levanta um importante questionamento acerca dos hábitos que podem ser classificados como saudáveis. No delinear do século XXI, a banalização da prescrição de psicofármacos na infância demonstra que a sociedade brasileira ignora as recomendações desse órgão, prejudicando, assim, a saúde dos infantes. Dentre as causas que contribuem com essa banalização, desta-se não só a falta de preparo dos profissionais de saúde no diagnóstico acurado de doenças mentais, como também a cultura do uso abusivo de medicamentos enraizada no Brasil.
Nessa perspectiva, cabe pontuar que o diagnóstico diferencial de possíveis doenças mentais, especialmente em crianças, é um procedimento complexo e que demanda profissionais qualificados. Contudo, observa-se outra realidade no cenário nacional, posto que, de acordo com um levantamento realizado pelo Hospital Albert Einstein em 2011, aproximadamente 75% dos pequenos que já fazem uso de psicofármacos foram diagnosticados erroneamente. Evidencia-se, portanto, que uma parcela da população juvenil brasileira se submete aos efeitos colaterais desnecessários associados ao uso indevido de determinadas drogas.
Ademais, os diagnósticos equivocados encontram terra fértil na cultura do abuso de medicamentos fortemente enraizada em território nacional. Segundo dados divulgado pelo Conselho Federal de Farmácia em 2020, o Brasil figura entre os 10 países que mais consomem medicamentos no mundo. Dessa forma, fica claro que existe uma crença de que todo tipo de problema, incluindo pequenos desvios de comportamento em crianças, deve ser tratado por meio de fármacos. Logo, constata-se que essa cultura do abuso prejudica, ainda que no longo prazo, a saúde dos infantes.
Destarte, pode-se inferir que a banalização da prescrição de psicofármacos na infância é um tema relevante e que carece de soluções. Sendo assim, cabe ao Ministério da Saúde, órgão responsável pela proteção e recuperação da saúde da população, por meio das mídias televisivas e sociais, promover campanhas publicitárias que tenha por objetivo educar a população acerca das possíveis consequências associadas ao uso indiscriminado de psicofármacos em crianças, a fim de acabar com a cultura do abuso dessa classe de medicamentos no Brasil. Além disso, essas campanhas devem orientar os pais a sempre buscar uma segunda opinião médica, reduzindo, assim, as chances de um diagnóstico incorreto. Espera-se que, com essas medidas, a sociedade brasileira entenda de forma plena o conceito de saúde defendido pela OMS.