A banalização das cirurgias plásticas na sociedade contemporânea

Enviada em 28/07/2021

O advento das cirurgias plásticas torna-se cada vez mais comum, a começar pelas denominações atualmente empregadas, a citar: procedimentos estéticos, aplicação de injetáveis, harmonização facial etc. Assim, esse fenômeno ganha força a partir de vários fatores, entre eles as inovações tecnológicas — e o poder de modificar as feições —, o posterior incremento da internet às mídias tradicionais e, o mais recente, a presença de influenciadores digitais. Em suma, esses eventos reafirmam padrões e endossam a perseguição para atingi-los, inclusive a custo de cirurgias invasivas.

Nesse sentido, as intervenções cirúrgicas, apesar de terem representado estigmas durante algumas décadas, são cada vez mais procuradas por pessoas com “imperfeições” corporais, mas, principalmente, por aquelas insatisfeitas com a aparência, geralmente não condizente com os padrões midiáticos. Ainda, em “O mito da beleza”, Naomi Wolf denuncia as armadilhas dos ideais estéticos, defende que são estratégias de mercado para gerar lucros exorbitantes, já que as indústrias de dieta, cosméticos e cirurgias são umas entre as maiores do mundo. Além de ser uma ficção nefasta, o ideário que cultua uma beleza padronizada serve para gerar insatisfação, porque, ainda segundo Wolf, é algo antinatural. Porém, não é assim que “o mito da beleza” é vendido pelos interessados.

Outrossim, modificações foram feitas quanto ao vocabulário e à divulgação dos procedimentos, a fim de tornar algo mais acessível. Por exemplo, com as redes sociais, é muito comum encontrar influenciadores digitais anunciando toda sorte de serviços com eufemismos baratos, banalizando as intervenções cirúrgicas com fins estéticos a partir de publicações sobre o processo e “desmistificando” os riscos. Dessa forma, como ficou claro na série “O dilema das redes”, o fluxo incessante de informações da internet suprime a capacidade reflexiva dos indivíduos, dando base ao “alastramento” de tendências impensadas e perigosas. Algo desconsiderado pela população e reafirmado em “O mito da beleza” é o adoecimento dos indivíduos, uma vez que a maioria das cirurgias são motivadas por insegurança e insatisfação com o próprio corpo. Logo, as cirurgias plásticas são processos complexos, perigosos, imprevisíveis e, às vezes, irrevogáveis, e devem ser entendidas como tal.

Portanto, compete ao governo, em parceria com o segundo setor, estabelecer novas diretrizes e méto-dos de abordagem com relação às cirurgias plásticas, por meio da promoção da responsabilidade soci-al, com novas leis para os anunciantes e comoutros tipos de divulgação, os quais devem levar em conta as implicações práticas e as motivações psicológicas, geralmente ignoradas pelos candidatos aos processos invasivos, bem como por meio de campanhas que valorizem as identidades visuais diversas. Com isso, as decisões serão tomadas de forma consciente e cuidadosa, sem idealizar os resultados.