A banalização das cirurgias plásticas na sociedade contemporânea
Enviada em 26/07/2021
No contexto da Primeira Guerra Mundial o médico Sir Harold Gillies destacou-se no tratamento cirúrgico de lesões faciais de soldados, na tentativa de minimizar as heranças negativas do combate. Analogamente, na sociedade contemporânea, a realização de cirurgias plásticas cresce exageradamente em alguns países, evidenciando a banalização desses procedimentos. À vista disso, é preciso discorrer sobre as problemáticas que promovem esse fenômeno, tais como a despreocupação com a integridade do corpo e da mente e a indiferença do Estado quanto ao infortúnio.
A princípio, é válido citar que o descaso com o corpo e a mente deve-se a supervalorização do padrão de beleza. Nessa perspectiva, Ítalo Marsili, psiquiatra brasileiro, afirma que quem se orienta no mundo a partir do que sente está cultivando um solo fértil de neurose, depressão e infelicidade. Dessa forma, é possível associar o pensamento citado à realidade das cirurgias plásticas, visto que as pessoas se submetem as operações clínicas, muitas vezes, por sentirem-se fora de padrões estéticos impostos por organizações globais, que regem toda uma coletividade, suprimindo a individualidade e, consequentemente, causando males à saúde mental e corporal.
Posteriormente, vale também ressaltar que a indiferença estatal dá-se pelos ganhos exorbitantes e atrativos com as intervenções estéticas realizadas em excesso. Nesse sentido, na língua árabe o conceito de ser humano o define como “aquele que se esquece do fundamental”. Paralelamente, em se tratando do alto número de operações realizadas e dos casos de insucesso, tendo em vista a morte de pacientes, como o acontecido com a modelo brasileira Liliane Amorim, que faleceu decorrente de complicações de uma cirurgia plástica, em 2021, ocorrência noticiada pelo portal Globo, verifica-se que o Estado ignora as consequências trágicas da trivialização da vida em detrimento dos impostos que são arrecadados sobre os processos cirúrgicos efetivados.
Urge, portanto, o Conselho Federal de Psicologia, em parceria com instituições de ensino, promover eventos informativos sobre os critérios para a realização de uma cirurgia plástica, efetivando também uma reflexão sobre os riscos de render-se aos ditames coletivos, a fim de esclarecer desde cedo a importância de cuidados corporais e mentais. Compete ainda à OMS, associada à Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, efetuar fiscalização do Estado, por meio da exigência de informações sobre a quantidade de procedimentos cirúrgicos estéticos e prováveis mortes decorrentes de erros médicos, com o intuito de executar punições indispensáveis e garantir a ação estatal honesta. Desse modo, seria plausível visualizar melhorias no cenário da banalização das operações supracitadas.