A banalização das cirurgias plásticas na sociedade contemporânea

Enviada em 15/10/2021

De acordo com o teórico britânico David Harvey, a globalização fomentou o chamado “encolhimento do mundo”, isso é, o aumento das interações a distância provocado pelas ferramentas da modernidade. Entretanto, com as novas tecnologias, surgem também moldes ideais de um padrão corpóreo a ser desejado pela sociedade, estimulando a vulgarização das cirúrgias plásticas — um problema alarmante para a salubridade humana. Assim, é possível afirmar que não só a falta de senso crítico populacional em relação aos conteúdos nas redes sociais, mas também a sobreposição da estética à saúde desenham o panorama do século XXI.

Inicialmente, é necessário dizer que as redes sociais são um reflexo irreal da realidade, a qual é deturpada para se atingir um propósito social: a ostentação. Conforme os dados da empresa britância GlobalWebIndex, o Brasil é o 2º país que passa mais tempo conectado nas redes sociais, ou seja, a segunda colocação com maior influência do conteúdo compartilhado nas redes, entre o qual está um acervo enorme de corpos “perfeitos” e delineados. A priori, é inadmissível que a população se deixe levar por um ambiente virtual superficial sem ao menos se questionar — afinal, um modelo a se buscar não é o problema, mas sim  atingí-lo de forma cirúrgica, um risco que pode não ser conveniente.

Ademais, outro tópico importante tange à questão da saúde humana, esta deixada de lado para satisfazer simples desejos estéticos. De acordo com o livro “As dores do Mundo”, de Arthur Schopenhauer, o indivíduo só fornece relevância à saúde  quando é perdida ou limitada, não tendo consciência sobre ela quando em plena normalidade. A partir desse aspecto, quando um corpo saudável se submete a interveções estéticas de risco, o dono dele pode se arrepender consideravelmente quando sua salubridade estiver afetada, um fato que poderia ter sido evitado por uma simples análise racional, e não superficial atrelado à aparência.

Destarte, é dever do Estado, no âmbito de ministérios atuantes, em consonância com as instituições de ensino, realizar a conscientização populacional por intermédio de palestras educativas e campanhas publicitárias que discorram acerca não só da utopia construída nos ambientes sociais virtuais, mas também sobre procedimentos cirúrgicos que deram errado, com exemplos reais de pessoas que tiveram a vida comprometida ou seriamente afetada. Espera-se, com tudo isso, uma melhor percepção para com as mudanças corpóreas e, por conseguinte, uma diminuição dos procedimentos médicos.