A banalização das cirurgias plásticas na sociedade contemporânea

Enviada em 22/08/2021

A Constituição Federal de 1988, documento jurídico mais importante do país, prevê em seu artigo sexto, o direito a saúde como inerente a todo cidadão brasileiro. Conquanto, tal prerrogativa não tem se reverberado com ênfase na prática quando se observa a banalização das cirurgias plásticas na sociedade contemporânea, dificultando, deste modo, a universalização desse direito social tão importante. Diante dessa perspectiva, faz-se imperiosa a análise dos fatores que favorecem esse quadro como a normalização dos procedimentos pelas redes sociais e a imposição de um ideal estético.

Em uma primeira análise, deve-se ressaltar a ausência de medidas governamentais para combater o incentivo à realização dessas cirurgias estéticas sem recomendação médica atuante principalmente pelas redes sociais e seus influenciadores. Nesse sentido, verifica-se um crescimento da popularidade desse fenômeno recentemente consolidado sob a forma da “Harmonização Facial”, propagada e recomendada por inúmeras celebridades e artistas, que em sua maioria não possuem embasamento ou credibilidade acerca do assunto e desconhecem seus prejuízos à saúde. Essa conjuntura, segundo as ideias do filósofo contratualista John Locke, configura-se como uma violação do “contrato social”, já que o Estado não cumpre sua função de garantir que os cidadãos desfrutem de direitos indispensáveis, como a saúde, o que infelizmente é evidente no país.

Ademais, é fundamental apontar a imposição de um ideal estético como impulsionador do aumento desses procedimentos no Brasil. Segundo a USP (Universidade de São Paulo) o número de cirurgias plásticas realizadas sem acompanhamento médico anterior teve um aumento de 140% no perído de 2018 à 2020. Diante de tal exposto verifica-se a nocividade desse padrão estético imposto à sociedade, frequentemente observado em novelas e seriados os queixos afinados, bochechas rasas e lábios pequenos, tornaram-se a aparência almejada por muitos jovens e adultos, levando ao crescimento exponencial no número de cirurgias desnecessárias e sem prescrição que replicassem estas feições. Logo, é inadmissível que esse cenário continue a perdurar.

Depreende-se, portanto, a necessidade de se combater esses obstáculos. Para isso, é imprescindível que o Estado, por intermédio de campanhas nas redes sociais, divulgue informações acerca da não reversiblidade dos processos estéticos, seus riscos à saúde e meios de aceitação da própria aparência – como incentivo à meditação e não auto-comparação com os outros – a fim de reduzir a quantia dessas cirurgias e aumentar o bem-estar com si próprio por parte de jovens e aultos. Assim, se consolidará uma sociedade mais feliz e saúdavel, onde o Estado desempenha corretamente seu “contrato social”, tal como afirma John Locke.