A banalização das cirurgias plásticas na sociedade contemporânea

Enviada em 07/10/2021

No livro “Frankenstein”, de autoria da britânica Mary Shelley, é relatado como o monstro criado na obra, criatura trazida à vida pela junção de membros de cadáveres, é repudiado pela sua aparência divergente aos moldes humanos, o que finda em sua completa exclusão social. Paralelamente à ficção inglesa, ao observar a aversão àquilo que destoa dos padrões estéticos da coletividade, são constatados problemas advindos ao cenário, como, por exemplo a banalização das cirurgias plásticas na contemporaneidade, problemática que traz consigo preocupantes danos sociais. Por isso, graças à incessante busca pela perfeição e à longínqua idealização do intangível, a conjuntura entra em pauta.

Em primeiro plano, a pressão social que projeta um físico totalmente isento de defeitos intensifica a conjectura. Nesse sentido, a obra literária “Poema em linha reta”, do escritor Fernando Pessoa, discorre sobre a aparente existência humana incompatível com erros, o que inferioriza aqueles que destoam dessa afirmação. Dessa forma, a partir do momento em que a sociedade como um todo torna modelo estético mínimo a perfeição, a realização de cirurgias plásticas é tida como válvula de escape pelos deslocados do padrão imposto, fato que acaba por popularizar procedimentos na aparência e faz com que a coletividade entre em um ciclo vicioso de repúdio a imperfeições, autodepreciação individual e a utilização inconsequente de técnicas plásticas. Logo, devido à idealização dos padrões sociais, como corroborado por Fernando Pessoa, há tal banalização cirurgias.

Ademais, a criação de modelos estéticos intangíveis desde as origens da coletividade agrava, ainda mais, o quadro. Nesse viés, o Humanismo, vertente das obras do Renascimento cultural na Europa, possuía traços que idealizavam o corpo humano e o relacionavam com deuses em esculturas e pinturas. Dessa forma, no instante em que já nas raízes da sociedade os moldes idealizados da estética humana eram preconizados, a contemporaneidade é influenciada pelo legado da antiguidade, o que torna comum tomar como reflexo a perfeição do físico e a inferiorização social, fato que impulsiona tais procedimentos. Assim, graças a problemas advindos, são necessárias medidas interventivas.

Portanto, depreende-se que a questão da banalização das cirurgias plásticas é tida como um desafio e carece de soluções. Sendo assim, a mídia, ao lançar mão do alcance dos influenciadores digitais, deve, por meio de campanhas na rede que enalteçam o físico humano intrínseco a defeitos e o convívio saudável com eles, dar visibilidade à diversidade estética e abolir os moldes preestabelecidos, a fim de construir uma sociedade que aprecie sua imagem própria e, dessa maneira, fazer com que a realização de cirurgias plásticas deixe de ser uma prática banal, o que tem poder de erradicar a aversão àquilo visto como aquém do padronizado, como relatado por Mary Shelley em “Frankenstein”.