A banalização das cirurgias plásticas na sociedade contemporânea

Enviada em 01/09/2021

No livro “O Retrato de Dorian Gray”, o escritor irlandês Oscar Wilde conta a história do jovem Dorian, que, ao perceber as vantagens sociais que possui por ser belo, fisicamente, faz um pacto fáustico para manter-se juvenil e bonito até a morte. Nesse romance, Wilde expõe valores da Modernidade, como o uso da beleza física para ser amado e bem sucedido, além da visão de velhice como degradação do indivíduo. Não distante da literatura, as sociedades contemporâneas recorrem às cirurgias plásticas, como alternativa ao pacto de alma, para satisfazerem padrões de beleza e, desse modo, ascenderem socialmente, banalizando, assim, a medicina. Logo, é necessária a análise dessa problemática, que envolve tanto o poder da beleza nas sociedades quanto irresponsabilidades de alguns médicos.

Nesse contexto, há a tendência humana a priorizar a aparência física em vez de virtudes morais. Há quem diga que a beleza é relativa, mas, segundo a socióloga Catherine Hakim, a História Social e os estudos comportamentais têm demonstrado que não só existem padrões universais de beleza, como eles exercem poder nas relações sociais. No seu livro “Capital Erótico”, Hakim aponta que os homens valorizam, em alguma medida, aspectos físicos, como altura e simetria facial, na formação de vínculos pessoais e profissionais. Ademais, as pessoas que nutrem padrões belos, em si, recorrendo às cirurgias, por exemplo, ganham um capital, que pode ser usado para conquistar relações afetivas e econômicas. Com isso, infere-se que a banalização das cirurgias plásticas está associada ao poder simbólico da aparência, nas relações modernas.

Além disso, há as práticas irregulares de intervenções cirúrgicas por profissionais de saúde não especializados. No Brasil, por exemplo, de acordo com o Conselho Regional de Medicina de São Paulo, 97% dos processos judiciais motivados por cirurgias plásticas, de 2001 a 2008, foram contra médicos sem título de especialista. Com o crescimento da Classe C, muitos profissionais médicos e agências de saúde têm calculado a potencial procura desse grupo econômico por procedimentos estéticos. Com isso, os médicos ofertam procedimentos de qualidade técnica questionável, assim contrariando eticamente o Conselho Federal de Medicina (CFM) e banalizando as práticas médicas.

Percebe-se, portanto, que a vulgarização dos procedimentos estéticos é fruto de corrupções no ofício médico e das relações interpessoais modernas, submissas aos padrões de beleza. Para combater esse mal, é salutar que os poderes legislativos brasileiros alterem, por meio de uma Emenda Constitucional, a legislação vigente, que permite que qualquer médico exerça qualquer área, autorizando que apenas médicos com especialidade cirúrgico-estética exerçam a prática, além de rígida punição aos infratores das leis do CFM. Outrossim, cabe às famílias educarem seus pares, ensinando-os que a beleza física, por ser efêmera, não deve guiar os laços sociais. Assim, a trivialização das cirurgias plásticas findará.