A banalização das cirurgias plásticas na sociedade contemporânea

Enviada em 24/09/2021

Parafraseando a primeira lei newtoniana, um corpo não terá seu movimento alterado a menos que forças externas suficientes ajam sobre ele, sobressaindo a sua inércia. Esse é o hodierno cenário da banalização das cirurgias plásticas na sociedade contemporânea: uma inércia que perdura em detrimento da quantidade de cirurgias plásticas desnecessárias realizadas no país, além da pressão estética das mídias digitais. Sendo assim, convém analisar os principais pilares dessa chaga social.

Vale ressaltar, a princípio, que, de acordo com o Conselho Regional de Medicina do Estado do Paraná, 73% das cirurgias plásticas realizadas no país são intervenções estéticas e apenas os 27% restantes são cirurgias reparadoras. Tal cenário mostra o quanto a saúde está, progressivamente, ficando em segundo plano e que indivíduos, cada vez mais, arriscam a vida com a finalidade de atingir moldes irrelevantes. Aprofundando mais, programas televisivos, como o “Botched”, expõem cirurgias plásticas que deram errado, juntamente com seus efeitos e consequências na vida de cada paciente, como, por exemplo, ocorreu com a influencer brasileira Liziane Gutierrez, que teve seu rosto deformado após muitos procedimentos realizados.

Sob outro prisma, faz mister salientar que Brás Cubas, o defunto-autor de Machado de Assis, alegou em suas “Memórias Póstumas” que não teve filhos e não transmitiu para criatura sequer o legado de nossa miséria. Possivelmente, hoje, ele perceberia quão certeira foi sua decisão: o atual panorama da estipulação das mídias por um modelo corporal ideal é uma das faces mais lamentáveis do âmbito nacional. Isto posto, magreza, músculos definidos, cintura fina, seios e nádegas grandes - e sem estrias ou celulites - rosto harmonizado e pele sem manchas são algumas das  imposições disseminadas por propagandas e redes sociais. Ademais, tal pressão aumenta absurdamente a procura por procedimentos invasivos, como a mamoplastia e a lipo lad, padronizando corpos e promovendo pessoas alienadas em busca de tal padrão esdrúxulo.

Destarte, forças externas devem tornar efetivas, vencendo a inércia proposta por Newton. Dessa forma, é necessário que o Ministério da Saúde rompa essa compulsão por procedimentos estéticos desnecessário, por intermédio de palestras e campanhas educativas, além de debates na televisão, ministrados por médicos e psicólogos, que discutam sobre os problemas e consequências de tal prática danosa ao corpo, para reprimir esse vício da sociedade, a fim findar tal alienação. Também é necessário que o Poder Legislativo puna empresas que disseminam padrões de beleza obsessivos. Somente assim, alcançar-se-á um corpo social mais saudável, pois como referido por Karl Marx: “as inquietudes são a locomotiva da nação”.