A banalização das cirurgias plásticas na sociedade contemporânea

Enviada em 26/09/2021

Em “O Auto da Barca do Inferno”, Gil Vicente, o pai do teatro português, tece uma crítica ao comportamento vicioso do século XVI. Fora da ficção, o Brasil do século XXI demonstra as mesmas conotações no que se refere às cirurgias plásticas na sociedade contemporânea, visto que, infelizmente, foi transformado em algo banal e compulsório. Diante dessa perspectiva, torna-se evidente como causas a falta de conhecimento e o padrão de beleza perante as redes sociais.

Nesse cenário, ressalta-se que há, no Brasil, uma evidente falta de informações sobre cirurgias plásticas, que impulsiona a banalização. Sob esse viés, o filósofo Schopenhauer defende que os limites do campo de visão de uma pessoa determinam seu entendimento a respeito do mundo. Desse modo, para que um problema como a banalização das cirurgias plásticas na sociedade contemporânea seja resolvido, faz-se necessário ampliar o campo de visão a partir das informações. Entretanto, essa pauta não vem sendo debatida nas escolas, nas redes sociais e nem nos canais de televisão, o que diminui consideravelmente a chance de resolução. Logo, é notória a importância das informações, visto que a falta delas aumenta a banalização das cirurgias plásticas.

Ademais, a banalização das cirurgias plásticas na sociedade contemporânea provém da padronização da beleza nas mídias sociais. Para Rupi Kaur, “A representatividade é vital”. A poetiza ilustra sua tese fazendo alusão à uma borboleta que tenta ser mariposa por estar rodeada delas. Fora da poesia, verifica-se que a questão do aumento de procedimentos estéticos é fortemente impactada pela ideia do belo construído nas redes sociais. Diante dessa realidade, pessoas comuns não se encontram em meio a tantas blogueiras com sua estética padronizada e modificada pelas cirurgias plásticas e buscam o perfeito criado artificialmente. Tal quadro banaliza os procedimentos de alto risco, visto que mais pessoas se sentem pressionadas com seus corpos naturais, o que agrava essa situação abominável.

Portanto, medidas são necessárias para resolver a desinformação. Para que isso ocorra, é preciso que o Ministério da Educação, em parceria com o Conselho Federal de Psicologia do Brasil, desenvolva palestras em escolas, a serem webconferenciadas nas redes sociais desses órgãos, por meio de entrevistas com vítimas de cirurgias mal feitas ou que deram errado e médicos especialistas no assunto, com o objetivo de trazer mais lucidez sobre o tema. É possível, também, criar uma “hashtag” para identificar a campanha e ganhar mais visibilidade, a fim de conscientizar a população sobre o perigo das cirurgias plásticas. Dessa maneira, o comportamento vicioso do século XVI do livro Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente não se aplicará mais ao século XXI.