A banalização das cirurgias plásticas na sociedade contemporânea

Enviada em 03/10/2021

Em “Ensaio sobre a Cegueira”, o escritor português José Saramago desenvolve uma narrativa trágica centrada na crítica ao estado de irreflexão da sociedade pós-moderna, por intermédio de uma epifânica cegueira que acomete os indivíduos do meio social. Ao considerar tal sintoma para fundamentar a discussão sobre as cirurgias plásticas na sociedade contemporânea, vê-se que o corpo social hodierno desenvolveu uma cegueira moral ao não refletir sobre a banalização dessas intervenções no Brasil. Nesse sentido, cabe analisar de que forma a busca pelos padrões de beleza é um entrave, bem como esclarecer a falta de conhecimento acerca dos riscos cirúrgicos no país.

A priori, é preciso reconhecer que, a partir da construção social de um padrão de beleza, houve um aumento da busca de procedimentos capazes de proporcionar para as pessoas algumas características desejadas. Nessa perspectiva, atesta-se a percepção de Saramago, posto que a sociedade tornou-se cega ao não refletir sobre a busca desenfreada por intervenções cirúrgicas como lipoaspirações e rinoplastias para o enquadramento nos moldes estabelecidos. Há, evidentemente, a partir disso, uma grande influência das redes sociais sobre esse comportamento, visto que criam um ideal de belo a partir de celebridades e blogueiras. Dessa forma, vê-se uma grande rejeição do corpo natural e um aumento na procura por cirurgias plásticas no país.

Outrossim, é válido ressaltar que, no cenário nacional, não há uma ampla discussão social acerca dos riscos de cirurgias desnecessárias, gerando a falta de conhecimento popular. Sob essa ótica, ganha voz a percepção do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, na obra “O mal estar da pós-modernidade”, ao discorrer sobre as chamadas “instituições zumbis”, organismos sociais que, embora importantes, perderam, com o tempo, a forma. À luz dessa ideia, torna-se notório que o Estado tornou-se uma instituição zumbi, visto que não investiu em conscientizar a população sobre possíveis riscos como infecções e tromboses. Logo, sem a orientação necessária, os indivíduos seguem banalizando tais procedimentos plásticos.

Diante disso, é preciso concentrar esforços em solucionar esse impasse. Deve-se, então, pontuar que cabe ao Ministério da Educação, órgão responsável pela formação dos cidadãos, em parceria com o Conselho Federal de Psicologia do Brasil, a tarefa de conscientizar a população sobre os riscos de cirurgias plásticas e de desconstruir a importância dos padrões de beleza. Isso se daria a partir de seminários, palestras e rodas de conversas com profissionais qualificados. Essa proposta apresenta como objetivo a diminuição da banalização das cirurgias plásticas no cenário contemporâneo. Espera-se que, a partir dessa ação, finde-se a cegueira da razão no país.