A banalização das cirurgias plásticas na sociedade contemporânea

Enviada em 20/05/2022

No documentário original da Netflix, “O dilema das redes”, a personagem tem uma crise de ansiedade porque recebeu um comentário negativo em relação à suas orelhas. Apesar de se tratar de um exemplo fictício, muitas pessoas são acometidas por sofrimentos psíquicos devido a intensas propagandas de comparações corporais na internet, como anorexia e depressão. Nessa óptica, é importante responsabilizar a exponencial busca pelo corpo perfeito não apenas a presença manipuladora das redes sociais, mas também a persistência da cultura impor padrões corporais.

Nesse aspecto, a obra “Modernidade Líquida” escrita pelo filósofo Bauman explica como o ser humano contemporâneo está vislumbrado pelo consumo, gozo e artificialidade do agora, sendo essa “liquidez” resultado do incremento das redes sociais no cotidiano. Similarmente, a internet fomenta, principalmente os jovens — devido ao desenvolvimento insuficiente do córtex pré-frontal —, a busca pelo “corpo perfeito”, incitando dietas perigosas para a saúde tanto física quanto mental. Exemplificando, a influenciadora Maíra Cardi é considerada por muitos nutricionistas uma grande ameaça ao padrão estético de saúde e o processo de emagrecimento adequado, incentivando, também, a gordofobia e o preconceito nas redes sociais.

Ademais, é importante salientar a excessiva e persistente objetificação do corpo feminino na cultura, o que influencia no crescimento da busca de cirurgias plásticas devido à pressão exercida pela sociedade ao impor um tipo ideal de corpo, principalmente às mulheres. A propaganda brasileira da cerveja Itaipava contava com a presença da imagem feminina objetificada, ato facilmente confundido com empoderamento e liberalismo. Devido ao excesso de estímulos de corpos idealizados nas mídias, muitas mulheres acatam às cirurgias plásticas de risco muitas vezes para agradar suas expectativas de pertencimento social e aceitação em padrões de estétita, esse, muitas vezes, inalcançável. Assim sendo, a frase da clássica feminista Simone Beauvoir pode ser encaixada no tema: “toda opressão cria um estado de guerra”.

Em síntese, cabe ao Ministério da Educação, atrelado ao Ministério da Saúde, promover um maior direcionamento de verbas para instituições de ensino, como escolas e universidades, palestras ministradas por nutricionistas e psicólogos, com o fito de interligar corpo e mente em dietas que almejem saúde e aceitação pessoal, evitando aconselhamentos de “coaches” desprovidos de formação. Além do mais, as redes sociais devem expor a beleza do pluralismo de corpos, medidas e preferências, a fim de buscar um equilíbrio entre o idealismo e o realismo midiático. Dessa maneira, a ansiedade retratadas no documentário “O dilema das redes” ficará apenas na ficção.