A banalização das cirurgias plásticas na sociedade contemporânea
Enviada em 31/10/2021
“O indivíduo é fruto do meio em que está inserido”. Nessa concepção, a afirmação atribuída ao filósofo francês Émily Durkheim é claramente aplicável à situação da intervenção plástica como instrumento modificador da aparência do indivíduo, o que revela o quanto as pessoas são influenciadas para se adequar à padrões efêmeros de beleza. Por conseguinte, milhares dos brasileiros se submetem à procedimentos cirúrgicos em busca da satisfação pessoal. Com efeito, há de se deliberar como o controle social e a beleza como um consumo tem influência na questão.
É válido pontuar, de início, que a idealização da perfeição estética é uma das principais causas do problema. A esse respeito, o filósofo Michel Foucault disserta que as sociedades dispõem de mecanismos para controlar o comportamento de acordo com as normas e valores estabelecidos no meio social. Nessa perspectiva, não há dúvidas que o contexto social e a mídia - ditadora da imagem perfeita - exercem um poder coercitivo nas tomadas de decisões, visto que o indivíduo facilmente assimila o padrão de beleza como uma regra e não mede esforço, dinheiro e as possíveis consequências à saúde, o que demonstra como as pessoas são facilmente manipuladas e se encaixam no que Foucault chama de “Controle Simbólico”. Diante disso, é inegável que a fragilidade na construção da própria identidade possibilita essa afronta à individualidade humana.
Ademais, em segundo plano, é notório que a venda da imagem humana perfeita figura como outro desafio. Acerca disso, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em sua obra “Vida para consumo”, faz uma reflexão sobre o processo de construção da identidade das pessoas na sociedade de consumidores, as quais passam a considerar a si mesmas como mercadorias. Nessa ótica, milhares dos brasileiros estão – em busca de notoriedade – se transformando em mercadoria e coisificando a própria imagem com inúmeros procedimentos estéticos. Por conseguinte, já não se vê também na tela de cinema – como era antigamente – a expressão da beleza pura, simples e singular que cada um possui. Assim, o mercado da cirurgia plástica cresce ante a falta de autoestima do indivíduo.
É mister, portanto, que a banalização das cirurgias plásticas seja combatida. Para tanto, a escola – instituição responsável pela formação cidadã – deve, por meio de “workshops” e palestras, veicular conteúdos capazes de demonstrar quão importante é aceitar a própria imagem, sem distorções, para que a juventude volte ver como normal a real aparência das pessoas. Essa medida pode ser chamada de “Beleza singular”, e deve ser ministrada para alunos do ensino médio em todas as escolas do país. Feito isso, muito em breve, as pessoas recuperarão sua autoestima e esse cenário deixará de ser, conforme delata Durkheim, fruto de uma sociedade adoecida.