A banalização das cirurgias plásticas na sociedade contemporânea
Enviada em 17/11/2021
No episódio “Queda livre”, da antagônica série “Black mirror”, retrata-se uma sociedade distópica, em que as pessoas são avaliadas conforme notas numa rede social, de acordo com poder aquisitivo, círculo de amizades e aparência física. Quanto mais harmônicos a vida e o corpo dos personagens, mais acesso a bens e a “status” eles possuem. Para além da ficção, nota-se que a sociedade brasileira também está em “queda livre”, isso em razão da banalização das cirurgias plásticas no país. Assim, seja pela influência midiática, seja pelo silenciamento em torno do tema, a problemática agrava-se e, por isso, deve ser discutida.
Nessa perspectiva, nota-se que os veículos de mídia concorrem para a manutenção desse cenário. Acerca disso, para o sociólogo francês Pierre Bourdieu, aquilo que foi criado como instrumento de democratização não pode ser convertido em mecanismo de opressão. Por essa ótica, a mídia - enquanto meio de comunicação de massas - não deve superficializar ou invisibilizar os problemas sociais, o que exatamente tem feito no que tange à reprodução de padrões de beleza, haja vista o espaço de destaque que concede ao estereótipo de corpo ideal em novelas, filmes e programas, contribuindo, é claro, para a pressão estética na sociedade. Tudo isso aliado à escassez de informações a respeito da diferença entre saúde e estética e do risco de procedimentos cirúrgicos. Dessa forma, faz-se necessária uma mudança na postura dos veículos midiáticos.
Ademais, nota-se que o silenciamento social quanto à aceitação do próprio corpo concorre para o excesso de cirurgias plásticas. Acerca disso, é pertinente o entendimento do filósofo alemão Jurgen Habermas, segundo o qual “a linguagem é uma verdadeira forma de ação”, o conceito de ação comunicativa do pensador diz respeito aos problemas que o silenciamento causa e como a voz faz diferença. Diante disso, é imprescindível discutir os limites das “cirurgias do momento” e a construção social da beleza, a fim de normalizar a multiplicidade de formas e evitar que homens e mulheres submetam-se a intervenções por mera opressão do meio. Logo, mediante o debate, o corpo social receberá orientações, para que tenha plena consciência desses tratamentos.
Portanto, impende que a banalização das cirurgias plásticas deixe de ser realidade no Brasil. Para isso, o Ministério da Saúde deve promover campanhas acerca da aceitação do próprio corpo e voltadas a orientar a comunidade a avaliar com cautela a necessidade de intervenções cirúrgicas, o que pode ser feito por meio de mobilizações em redes sociais (Facebook, Twitter e Instagram) e por intermédio de programas televisivos, com o fim de engajar a população a questionar os estereótipos e suas escolhas. Dessarte, a sociedade brasileira não viverá tal qual a sociedade distópica em “Queda livre”.