A crescente crise na mobilidade urbana brasileira

Enviada em 31/10/2019

A partir da pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, de 2013 a 2015, relatando uma queda de 28% na concordância à construção e ampliação de rodovias, infere-se explicações para explicar um quadro que reflete também a diminuição da disposição ao uso de transportes alternativos ao carro: as antigas morfologias da cidade ‘explodiram’ – isto é, foram distorcidas ajustando-se apenas em função do uso de automóveis. Desse modo, torna-se necessário uma revolução urbana aliada à uma revolução política e econômica, todas orientadas pelo vetor da necessidade social.

Isso posto, nota-se que a adaptação da cidade à popularização do carros é concomitante com o tempo das lógicas neoliberais. À vista disso, apenas 38% das cidades possuem transporte público próprio (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2012). Por conseguinte, tal cenário implica que a superestrutura política contemporânea não tende a remediar as condições materiais débeis da maioria da população, mas sim justificá-la, tal como Gramsci alertou. Analogamente, Milton Santos observou que a cidade possui mecanismos que engendram o empobrecimento das minorias suburbanas.

Assim, a mobilidade é relegada à posse de automóveis próprios, que por sua vez só contribui para a desordem e engarrafamentos na cidade. Nesse sentido, para Henri Lefebvre, estende-se novas misérias, associadas à cotidianidade organizada da sociedade do consumo. Logo, evidencia-se a necessidade de uma nova ideologia urbana, que privilegia, em oposição, conceitos como a ‘andabilidade’: planejamento do espaço das ruas que torna a caminhada agradável, segura e interessante.

Cabe, portanto, aos setores periféricos citadinos a promoção e organização de protestos, com o fim de exigir uma nova lógica de mobilidade, a evitação da lógica de inação do Estado e o privilegiamento do conceito de ‘andabilidade’. Assim sendo, direciona-se tais manifestações aos urbanistas e aos representantes da população, promovendo então o melhor acesso das classes menos abastadas ao lazer, saúde, educação e segurança – Marx, afinal, escreveu que a humanidade só levanta problemas que pode resolver.