A crescente crise na mobilidade urbana brasileira
Enviada em 27/10/2019
O humanista Thomas Morus retrata uma sociedade idealizada, em “A Utopia”, na qual, segundo o autor, as ruas espaçadas e as praças seriam convenientemente dispostas tanto para garantir o tráfego quanto para proteger-se dos ventos. Desse contexto, é válido fazer uma comparação da quimera deste autor com a realidade brasileira atual, em que o crescimento inadequado e ingerido culminou em uma crise de mobilidade urbana, oposta à contemplada pelo pensador, resultando em problemáticas sociais de múltiplas ordens. Nesse sentido, torna-se essencial readequar o sistema de mobilidade urbana das cidades do país, tendo em mende a solução questões tanto sociais, quanto ambientais, dele advindas.
No que concerne ao primeiro ponto, é relevante salientar que o atual modelo urbano-paisagístico adotado no país compromete a vivência social e o contato entre os sujeitos. Para elucidar esse tópico, o urbanista e arquiteto Jan Gehl, em “Cidades para Pessoas”, defende que as cidades devem evitar o isolacionismo provocado por automóveis particulares, priorizando as relações interpessoais e a vivência ativa com a cidade. A partir disso, infere-se que o estado caótico e desordenado do sistema de mobilidade urbana presente promove o isolacionismo, o que impede a interação entre os membros da cidade entre si e entre o patrimônio coletivo da própria cidade, bem como debilita o exercício pleno da cidadania por não garantir essa troca substancial de experiências e informações.
Já em relação ao segundo ponto, é coerente ressaltar o dano ambiental causado por uma conjuntura que prioriza o transporte particular ao coletivo. Acerca disso, vale destacar o que afirma o historiador Yuval Noah Harari que aponta, em “Homo Deus”, que um plano central para prevenir tragédias é o de proteger o ambiente do poder humano, visto que o famigerado crescimento econômico provoca um grande desbalanço ecológico. Posto isso, observa-se que a cultura individualista, somada à precariedade do transporte coletivo no Brasil, colaboram para preferencia automotiva que causa danos ambientais na medida em que libera gases agravadores do efeito estufa e poluidores do ar. Assim, a crise da mobilidade urbana tida na falta de integração social impacta em males ambientais nefastos.
Defronte ao apresentado, cabe uma reflexão acerca de medidas capazes de superar os desafios impostos à mobilidade urbana no Brasil. A respeito disso, as prefeituras, por ser este o órgão a par de gerir decisões e tomar providências no âmbito local, deve desenvolver projetos de recuperação e expansão do transporte coletivo. Isso pode ser feito por meio da expansão de corredores de ônibus, criação de pontos de conexão intermodal, reestruturação da frota e readequação dos pontos de acesso. Tudo isso com o objetivo de superar a cultura automotiva, promovendo a interação humana e salvaguardar o ambiente de possíveis danos oriundos de uma mobilidade urbana ingerida e caótica.