A crescente crise na mobilidade urbana brasileira

Enviada em 31/10/2019

Apenas teoria

A República Federativa do Brasil constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamento assegurar a todos os indivíduos o direito à locomoção no território nacional. Entretanto, a crescente crise na mobilidade urbana -como o aumento do uso de transportes individuais em detrimento da utilização de transportes coletivos- impede que substancial parcela dos brasileiros experimente o ideal republicano na prática. Com efeito, o eficaz deslocamento nas cidades pressupõe que se desconstrua o modelo neoliberalista baseado em rodovias e no culto ao carro.

Em primeiro plano, há de se repensar o crescente investimento em estratégias incapazes de suprir a demanda. Nesse sentido, em meados do século XX, o então presidente Juscelino Kubitscheck preferiu investir no rodoviarismo -por meio de capitais estrangeiros- e motivou a população adquirir carros, sem os quais seria impossível o deslocamento nas cidades. Ocorre que o modelo proposto por JK promoveu -e ainda promove- a desigualdade social, na medida em que atende apenas a minoria detentora do poder econômico. Com efeito, é incoerente que, mesmo no Estado Democrático de Direito, o poder público persista em não oferecer mobilidade inclusiva.

De outra parte, o culto ao carro se mostra grande fomentador da conjuntura urbana. A esse respeito, o filósofo Theodor Adorno desenvolveu o conceito de Indústria Cultural, segundo o qual a mídia veicula conteúdos de forma constante e persuasiva, a fim de orientar o comportamento da sociedade. Isso é exemplificado por dados estatísticos da Agência Nacional de Transportes Terrestres(ANTT) que afirmam a média de 1 automóvel para cada 3 habitantes no Brasil. Assim, enquanto a supervalorização dos veículos automotores for a regra, os cidadãos serão obrigados a conviver com um dos maiores desafios do meio urbano: o trânsito caótico.

Impende, portanto, que a crescente crise na mobilidade urbana deixe de ser realidade no Brasil. Nesse sentido, a ANTT deve ampliar a oferta de trens e metrôs, por meio de contratos administrativos firmados com as empresas de transporte público -que reduziria o número excessivo de veículos particulares nas ruas- a fim de melhorar a mobilidade urbana. Ademais, os indivíduos devem manifestar seu senso crítico, por meio de discussões nas redes sociais, capazes de criticar o modelo neoliberalista -que manipula o comportamento- a fim de desestimular o culto ao carro. Dessa forma, essas iniciativas possibilitariam que a constituição federal deixasse de ser apenas teoria.