A crescente crise na mobilidade urbana brasileira
Enviada em 06/07/2020
No livro “Admirável mundo novo”, o escritor Aldous Huxley retrata uma sociedade em que seus integrantes são destituídos de uma consciência crítica, impedindo as percepções acerca dos problemas sociais que os circundam. Contudo, essa ausência de pensamento reflexivo não se limita à obra distópica, já que, na realidade brasileira, alguns setores políticos e sociais não têm compreendido efetivamente a gravidade, por exemplo, da crise na mobilidade urbana, dificultando, assim, a sua resolução. Nesse prisma, cabe analisar essa questão no país.
De início, pontua-se que o Poder Público revela-se negligente ao não combater a crise na mobilidade urbana. Isso porque existe uma deficiência no processo de investimento financeiro, uma vez que faltam verbas para ampliar, por exemplo, a frota de ônibus, o que favorece a superlotação e, consequentemente, a precariedade desse tipo de transporte coletivo. Em virtude disso, as pessoas tendem a optar pelo uso de automóveis individuais como meio de locomoção, intensificando o fluxo de veículos nas cidades. Vê-se, então, que o Estado não tem assegurado o bem-estar de toda a coletividade, demonstrando um desrespeito aos princípios previstos na Constituição Federal de 1988. Ademais, enfatiza-se que aceitar essa crise de mobilidade nas cidades é banalizar o mal. Porém, parte da sociedade tem apresentado uma certa resignação diante da ausência de assistência governamental, visto que falta oferecer a construção de novas ciclovias e, também, melhorias na infraestrutura ―como sinalização e segurança― das que já se encontram em funcionamento, o que tem reduzido a procura pelo uso de bicicletas. Constata-se, assim, que a naturalização dessa problemática corrobora os estudos da filósofa Hannah Arendt, posto que, segundo ela, a massificação social exerce influência sobre os indivíduos, fazendo com que percam a capacidade de distinguir o certo do errado.
Infere-se, portanto, que a crise na mobilidade urbana deve ser combatida. Logo, é necessário que o Estado, mediante atuações do Ministério da Economia, invista financeiramente na rede de transportes públicos, priorizando verbas para a ampliação da frota de ônibus, com o intuito de melhorar a circulação destes e, então, incentivar o uso de um meio coletivo de locomoção. Também, é fundamental sensibilizar a população, por meio de campanhas produzidas por veículos midiáticos, sobre a importância de não se adotar uma postura resignada perante essa problemática, potencializando, com isso, a mobilização coletiva em prol de uma assistência estatal que amplie o número de ciclovias e que promova melhorias nas já existentes, visando a estimular a utilização de bicicletas no cotidiano. Desse modo, a falta de senso crítico diante de impasses poderia se restringir à obra de Huxley.