A crescente crise na mobilidade urbana brasileira

Enviada em 14/07/2020

Em 1960, no governo de Juscelino Kubitscheck, o estímulo à compra de automóveis tinha como objetivo criar uma urbe moderna, capaz de contemplar as necessidades econômicas. No entanto, é indubitável que tal proposta, hodiernamente, é deturpada, tendo em vista a crescente crise da mobilidade urbana brasileira. Esse cenário nefasto é uma consequência tanto do descaso estatal, quanto do consumo demasiado, o que favorece, além de engarrafamentos, doenças cardiorrespiratórias. Perante isso, são necessárias ações a favor da circulação qualitativa e não nociva.

Nesse sentido, é importante destacar que o menosprezo para com uma infraestrutura segura é um empecilho para o progresso do uso de diferentes modais. Nessa perspectiva, a violência, associada às diminutas medidas de seguridade, é preponderante para a comercialização de automóveis, devido a percepção de perigo construída nos transportes coletivos – tendo em vista que, segundo uma pesquisa do Instituto de Opinião (Ibope), 85% dos entrevistados optariam por ônibus e metrôs, caso eles fossem devidamente planejados. Consequentemente, é inquestionável que a insegurança inerente às grandes cidades, na contemporaneidade, é uma entrave para a circulação, uma vez que a negligência para investir em sistemas de controle urbano afeta todos aqueles dependentes da locomoção.

Ademais, é necessário ressaltar que a crescente obtenção de automóveis vilipendia a saúde humana pela emissão exagerada de gases tóxicos. Nesse viés, o sociólogo alemão Karl Marx, com base no conceito de “fetichismo da mercadoria”, descreve a alienação pelo consumo como um fator fundamental para a dissociação entre o produto e seu processo deletério a partir da associação midiática entre compra e status. Semelhantemente, é incontrovertível que o ideal capitalista, por subverter valores sociais pelos monetários, estimula negociações acríticas, as quais promovem a supervalorização da representação de um “establishment” em detrimento da saúde, tal como ocorre com o comércio de veículos.

Destarte, ante a desorganização quanto à proteção e o consumo prejudicial para a população, urgem medidas socioeconômicas em prol de um fluxo competente. Para isso, é fulcral que o Ministério da Infraestrutura, associado à Secretaria Especial da Cultura, estimule o uso de modais coletivos. Isso deve ocorrer por intermédio da fiscalização nos principais centros de acesso àqueles meios, além da desconstrução da visão alienada quanto aos transportes, como pela erudição sobre a poluição e sobre meios alternativos, com o fito de mitigar a crise urbana baseada tanto na insegurança quanto no consumo pelo controle estatal e pela conscientização. Assim, será possível a apropriação do projeto de Juscelino para formar uma urbe qualitativa, que compreenda exigências socioeconômicas.