A crescente crise na mobilidade urbana brasileira
Enviada em 06/08/2020
“O mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a eles”. Essa afirmação da filósofa Simone de Beauvoir, pode servir de metáfora para a crise na mobilidade urbana no tecido brasileiro, uma vez que, por mais escandalosa que seja essa situação, poucos são os esforços destinados a resolvê-la. Indubitavelmente, tal conjuntura advém tanto do desleixo do Estado quanto do silenciamento pessoal.
Deve-se analisar, primeiramente, que o desinteresse do Estado é um fator determinante para problemática. Segundo o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, o conhecimento deve estar vinculado aos problemas do presente. Nesse viés, evidencia-se a falta de políticas públicas suficientemente efetivas para melhorar as conjunturas da mobilização coletiva e individual. Esse sentido é comprovado, pelo papel passivo que o Governo Federal exerce na organização das vias de tráfegos urbanos, acarretando, dessa maneira, a potencialização dos transtornos locomotivos nas rodovias nacionais. Diante disso, vale também salientar que tal impasse é um problema enraizado no Brasil desde 1920, no qual evidenciou o lema “Governar é abrir estradas” pelo então ex-presidente Washington Luiz. Contudo, começaram a surgir graves problemas, como estradas esburacadas, vias inacabadas e até mesmo a falta de sinalização no trânsito. Desse modo, o Governo atua como um dos agentes na crise mobilística.
É vital evidenciar, ainda, que a estagnação na mobilidade urbana no Brasil, encontra terreno fértil no silenciamento da população. Acerca dessa assertiva, Habermas faz uma contribuição que a linguagem é uma verdadeira forma de ação. Sob essa óptica, para que haja a exclusão dos conflitos relacionados ao tráfego urbano, é necessário discutir sobre. No entanto, verifica-se uma lacuna no que se refere a essa questão, que ainda é muito silenciada, pois a população se mantém passiva e calada diante tal problematização, além do que, conforme o levantamento do IBGE, 64% dos brasileiros tem dificuldade na locomoção automotiva. Nessa lógica, trazer à parte essa patologia e debatê-la, amplamente, aumentaria a chance de atuação nela.
Portanto, pela perspectiva de Isaac Newton, uma força só é capaz de sair da inércia se outra lhe for aplicada. Em vista disso, depreende-se o Poder Público, como instância máxima da administração executiva, em consonância com o Governo Federal, por meio de ações: mais investimentos nas rodoviais brasileiras, amplificar a sinalização nas vias de trânsitos e melhorar o transporte público, para que, de tal forma, torne-se acessível a todos os indivíduos, erradicando, dessa forma, os empecilhos na mobilidade urbana, tornando-a mais prazerosa, respeitável e de intensa acessibilidade. Somente, assim, os escândalos representados por Simone de Beauvoir poderão ser desabituados da nação.