A crescente crise na mobilidade urbana brasileira

Enviada em 07/08/2020

Segundo uma reportagem do Jornal Correio, a cidade de Campinas (São Paulo) corre o risco de ter seu trânsito interditado caso novos 284 mil carros entrem nas ruas. Essa situação exemplifica a crescente crise que a mobilidade urbana vem passando no Brasil. Tal contexto é de natureza preocupante, tendo sua gênese em um descaso governamental com o sistema de transporte público e consequências que abrangem desde engarrafamentos até danos à saúde pública.

Primeiramente, é necessário ressaltar que o Estado brasileiro desestimula o ônibus público como meio de transporte urbano. Segundo dados da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos, mesmo atendendo 86% da demanda pública por mobilidade, o transporte coletivo tem sofrido uma taxação cinco vezes maior no seu combustível principal - o diesel - do que os carros receberam sobre a gasolina. Ademais, a instituição aponta que o investimento estatal para suprir os custos dos ônibus das empresas concessionárias ocorre raramente. Nesse sentido, infere-se que a maior parte dos custos são cobertos pelos próprios usuários, o que inviabiliza o uso atual de gratuidades. Tem-se, assim, menos clientes e a elevação dos preços sem apoio governamental que torne sustentável tais parcerias.

Consequentemente, ocorre a desestimulação do uso de transportes públicos, o que acarreta prejuízos que abrangem congestionamentos e problemas de saúde pública. A progressiva perda de qualidade e aumento dos preços das passagens - segundo dados do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística - atua como forte motivo para que os cidadãos usem cada vez mais automóveis, sejam privados, sejam por serviços de aplicativo. Dessa forma, o número de carros eleva-se, menos pessoas são transportadas por metro quadrado e engarrafamentos, bem como acidentes de trânsito, tornam-se mais frequentes. Além disso, o aumento de veículos promove a criação de um ambiente danoso à saúde, tanto pela poluição sonora - que causa estresse - quanto pela intoxicação por gases poluentes.

É necessário, portanto, que hajam esforços para atacar as causas que tornam o transporte público pouco viável e favorecer a diminuição de carros nas vias terrestres. Bom seria se o Ministério dos Transportes, por meio de verbas governamentais, instituísse um plano visando o estímulo ao uso dos ônibus coletivos e a diminuição de automóveis em circulação. Tal projeto visará o maior investimento financeiro do governo dentro das Parcerias Público Privadas que ele possui com as empresas de transportes. Assim, um fundo monetário deve ser disponibilizado a essas empresas de modo que elas possam reduzir os preços de passagens e investir na melhoria e expansão de suas frotas. Tais medidas, aliadas ao uso do aumento de tributos sobre a gasolina para desestimular o uso de veículos pessoais, podem favorecer uma progressiva melhoria na mobilidade urbana brasileira.