A crescente crise na mobilidade urbana brasileira
Enviada em 02/11/2020
A Constituição Federal, promulgada em 1988, prevê a todo cidadão o pleno direito de ir e vir e assegura o bem-estar social. Entretanto, a população brasileira tem encontrado cada vez mais dificuldades tanto para se deslocar quanto para receber encomendas. Nesse sentido, dois aspectos são relevantes na análise desse fenômeno: a estrutura de transportes e os impactos ambientais.
Inicialmente, a crise na mobilidade urbana é fruto de uma rede de transportes com baixa variedade de modais. De acordo com a “teoria dos polos econômicos” idealizada pelo economista francês François Perroux, a implantação de uma indústria motriz, como a de carros, atrai capital e gera empregos, criando um polo de desenvolvimento. Dessa forma, durante o governo do presidente Juscelino Kubitscheck, que era pautado na política de rápido crescimento econômico, investiu-se fortemente no rodoviarismo como modal dominante, com objetivo de integrar o país a sua nova capital, Brasília. Por conseguinte, outros modais, como ferrovias e hidrovias, foram preteridos por rodovias, mesmo que apresentassem menor custo a médio e longo prazo, o que levou a expansão da frota de veículos e, por consequência, problemas no deslocamento urbano e na entrega de produtos.
Outrossim, a problemática da locomoção no Brasil prejudica diretamente o meio ambiente. Por certo, o dia 22 de setembro foi instituído como o Dia Mundial Sem Carro, a fim de promover uma reflexão acerca da mobilidade urbana. Entretanto, a preferência brasileira pelo sistema rodoviário aliada à macrocefalia das cidades, propicia a existência de um grande número de veículos circulando em um mesmo espaço. Desse modo, congestionamentos se tornam cada vez mais longos e comuns, o que intensifica as emissões de gás carbônico e criação de ilhas de calor, fenômenos que, além de afetar o meio ambiente, contribuem para a ocorrência de doenças respiratórias.
Portanto, constata-se que a questão da mobilidade urbana no Brasil é um obstáculo para o exercício do direito de ir e vir, configurando-se como um problema na sociedade. Sendo assim, é preciso que o Estado, que é responsável pela gestão dos recursos, invista na construção de mais ferrovias, uma vez que é o modal com manutenção mais barata, por meio de um programa nacional de integração das metrópoles. Ademais, é necessário que o governo de cada estado, que é encarregado da destinação da verba arrecadada, incentive o uso de bicicletas e patinetes, que são menos poluidores, como alternativa à utilização de veículos automotores, por meio da extensão de ciclovias e ciclofaixas já existentes. As ações propostas visam aumentar as opções de transporte e, consequentemente, minimizar as dificuldades para se deslocar no Brasil.