A crescente crise na mobilidade urbana brasileira
Enviada em 27/10/2020
Na obra “Utopia”, o escritor Thomas More discorreu sobre uma ilha perfeita. Desse modo, os utopianos, como eram chamados os seus habitantes, desfrutavam de um ambiente harmônico. No entanto, ao analisar o caos social decorrente da crescente crise na mobilidade urbana brasileira, constata-se uma população que não dialoga com a civilização de More. À luz disso, quando se observa as causas para tal quadro compreende-se que são fruto de um Estado negligente em suas ações, mas também pelo sentimento individualista no tecido social.
A princípio, de acordo com o filósofo Henrique de Lima, a sociedade assenta em um enigma de uma civilização tão avançada em suas razões teóricas e, por sua vez, tão primitiva em suas razões éticas. Sob esse prisma, verifica-se a postura do Estado, posto que apesar desse órgão fomentar leis que buscam satisfazer o anseio da sua população, o mesmo é omisso na execução de tais regulamentos. Prova disso é que embora a mobilidade urbana se apresente como um direito, nota-se que, a falta de investimento no transporte público e alternativo somado com prevalência do privado, o congestionamento, nas cidades, tornou-se em uma constância . Assim, um Governo que negligencia a ética em suas ações permite que o basilar seja negado ao cidadão.
Ademais, segundo o filósofo Zygmunt Bauman, a sociedade atual transferiu a ideia de progresso como melhoria partilhada para a sobrevivência do eu. Nesse sentido, percebe-se que o sentimento individualista tece o comportamento do homem hodierno e, consequentemente, permite a construção de uma sociedade que se silencia diante dos problemas sociais, haja vista que a sua felicidade centra -se apenas no seu bem-estar. Dessa forma, observa-se um corpo social, que devido à essa mentalidade, continua aderindo o transporte privado em vez de pressionar o Estado a exercer a sua função de garantidor de meios que possibilitem a mobilidade urbana. Consoante a isso, identifica-se a dificuldade de coibir tal problemática no tecido social.
Logo, é mister que o Estado mude esse quadro. Para tanto, cabe a esse órgão, mediante repasse de verbas públicas, fomentar o deslocamento saudável do cidadão pela cidade. Nesse viés, tais programas se estruturarão da seguinte forma: ampliar as ciclovias e as linhas de ônibus e metrôs afim de promover melhorias para que a população escolha esses transportes ao invés do privado. Outrossim, as escolas, por meio de aulas de sociologia embasadas na obra de Zygmunt Bauman em relação ao individualismos, elucide os perigos desse sentimento, com objetivo de mitiga-lo. Dessarte, com uma sociedade que desfruta da mobilidade urbana conseguirá reverberar os utopianos.