A crescente crise na mobilidade urbana brasileira

Enviada em 29/10/2020

Na obra “Utopia”, o escritor Thomas More descreveu sobre uma ilha que funcionava de forma perfeita. Desse modo, os utopianos, como eram chamados os seus habitantes, desfrutavam de um ambiente harmônico. No entanto, ao analisar a realidade das cidades brasileiras, percebe-se uma conjuntura que não dialoga com a ilha de More, pois nota-se que, no Brasil, não há preconização do bem-estar do cidadão, como se observa pela crescente crise na mobilidade urbana. À luz disso, quando se estuda as causas para essa problemática, constata-se que estão relacionadas com um Estado omisso, mas também com o sentimento individualista no tecido social.

A princípio, de acordo com o filósofo Henrique de Lima, a sociedade se assenta no enigma de uma civilização tão avançada em suas razões teóricas e, por sua vez, tão primitiva em suas razões éticas. Sob esse prisma, verifica-se a postura do Estado, dado que apesar desse fomentar leis que buscam satisfazer o anseio da sua população, o mesmo é omisso na execução de tais regulamentos. Prova disso é que embora a mobilidade urbana seja um direito, nota-se que os congestionamentos tornaram-se uma constância nas cidades, uma vez que a precariedade do transporte público, como a superlotação, e a escassez do alternativa faz com que haja a prevalência do privado. Assim, um Estado que negligencia a ética em suas ações permite que o basilar seja negado ao  cidadão.

Ademais, segundo o filósofo Zygmunt Bauman, a sociedade atual transferiu a ideia de progresso como melhoria partilhada para a sobrevivência do eu. Nesse sentido, percebe-se que o sentimento individualista tece o comportamento do homem hodierno e, consequentemente, permite a construção de uma civilização que se silencia diante dos problemas sociais, haja vista que a sua felicidade centra-se apenas em si mesmo. Desse modo, observa-se um corpo social, o qual devido a essa mentalidade continua a aderir o transporte privado em vez de pressionar o Estado a exercer a sua função de garantidor de meios que possibilitem a mobilidade urbana.

Logo, é mister que o Estado mude esse quadro. Para tanto, cabe a esse órgão, mediante repasse de verbas públicas, traçar políticas que buscam melhorar a mobilidade urbana. Nesse viés, tais programas expandirão as ciclovias pela cidade, mas também, por meio da parceria com o setor privado,  comprarão  novos ônibus, a fim de diminuir a superlotação e, assim, incentivar a população a aderir esses modelos de transportes ao invés do privado. Outrossim, as escolas, por intermédio de aulas de sociologia pautadas em  obras de Bauman, elucidarão os prejuízos sociais decorrente da ação individualista, com objetivo de mitigar tal sentimento na sociedade. Em vista disso, um país que anseia em fomentar o bem-estar da sua população conseguirá reverberar a civilização de More.