A crescente crise na mobilidade urbana brasileira
Enviada em 08/12/2020
Tornar as cidades inclusivas, sustentáveis e seguras é um dos objetivos da agenda 2030, estabelecida pela Organização das Nações Unidas. No Brasil, entretanto, verifica-se o colapso do sistema viário que dificulta a efetivação dessa meta. Nesse contexto, o culto ao carro particular e a precariedade do transporte coletivo e das calçadas enfraquecem a vitalidade dos espaços públicos, tornando-os menos convidativas para pedestres e ciclistas. Assim, tais fatores corroboram o discurso do urbanista Jan Gehl de que é preciso resgatar a dimensão humana das cidades.
Em primeira análise, observa-se o predomínio o predomínio do urbanismo rodoviarista – criticado pela escritora Jane Jacobs - que privilegia o uso do automóvel e degrada o território que deveria ser destinado à vida comunitária. Esse fenômeno, aliado ao crescimento populacional dos grandes centros brasileiros, sobrecarrega a malha viária e, consequentemente, comprometendo o fluxo de pessoas e matérias que caracteriza a dinâmica urbana. Ademais, o sucateamento dos veículos e estações públicas, bem como a pouca diversidade de modais, fortalecem a atual cultura carrocêntrica.
Por conseguinte, esse sistema revela-se como catalisador de problemas ambientais – como poluição atmosférica e sonora - que tornam a urbe menos aprazível para a caminhada e o ciclismo. De acordo com Jacobs, as ruas e calçadas são os órgãos vitais das cidades, que promovem a integração e a convivência da sociedade. Nesse sentido, pode-se afirmar que os automóveis são como coágulos que obstruem os fluxos desse organismo a polis – e, dessa forma, ameaçar o direito constitucional de ir e vir.
Depreende-se, portanto, a necessidade de revitalizar o sistema de transporte coletivo e a infraestrutura urbana, a fim de garantir meios de locomoção mais democráticos e sustentáveis. Para tanto, urge que os governos municipais, por meio de parcerias público- privadas com concessionárias desse serviço, invistam no BRT – Bus Rapid Transport – para tornar esse modal mais eficiente. Em adição, com vistas a erradicar o carrocêntrismo, é imprescindível a construção de ciclovias, a melhoria das calçadas e a restrição de estacionamentos nas ruas. Assim, será possível consolidar a urbanidade, ou seja, a apropriação das cidades pelas pessoas, defendida por Jacobs e Gehl.