A crescente crise na mobilidade urbana brasileira

Enviada em 03/12/2020

O documentário “Junho: o mês que abalou o Brasil”, de João Wainer, retrata as manifestações ocorridas no ano de 2013 contra o aumento do valor da passagem de ônibus, um reflexo da indignação popular quanto à qualidade do transporte público e o preço pago por sua utilização. Em razão da falta de planejamento urbano e do histórico incentivo à indústria automobilística, hoje o Brasil vive uma crise na mobilidade urbana, com consequências como a alta frota de carros em circulação, o sucateamento do transporte coletivo e ainda a pouca segurança e desconforto, na maioria das regiões, para o deslocamento a pé ou de bicicleta.

Entre as causas dessa crise, destacam-se a urbanização desordenada que se deu no Brasil, tal qual o histórico estímulo governamental à posse de automóveis. Essencialmente na década de 1950, se deu início o intenso processo de urbanização brasileiro, em decorrência dos projetos desenvolvimentistas e industriais característicos de governos como o de Juscelino Kubistchek. Em adição, durante o seu mandato, JK priorizou a ampliação da malha rodoviária brasileira, atraindo assim empresas estrangeiras automobilísticas e, consequentemente, ampliando o desejo de consumo da classe média – um claro reflexo da influência do “American Way of Life”, isto é, o estilo de vida consumista americano. Dessa forma, com o crescente contingente de cidadãos migrando para o meio urbano e, junto a isso, o aumento do poder de compra da classe média, o número de carros circulantes nas rodovias disparou.

Em decorrência disso, existe certo descaso governamental no que diz respeito à qualidade do transporte público, ocasionando o sucateamento desse modal, além também da falta de investimentos na infraestrutura de ciclovias. Por priorizar o transporte privado durante décadas, o governo brasileiro pouco investe no transporte coletivo, ainda que esse seja o principal meio de locomoção da maioria dos brasileiros. As manifestações de 2013 retratadas no documentário “Junho: o mês que abalou o Brasil” são consequência direta do desinteresse do Estado em oferecer um transporte público de qualidade, mas não em cobrar tarifas que não correspondem à qualidade dos ônibus. Além disso, com o mau planejamento das cidades, a construção de vias para bicicletas permanece limitada, o que enxuga a variedade de meios de locomoção.

Logo,  cabe ao Governo Federal direcionar verbas à Secretaria de Estado de Infraestrutura e Mobilidade a fim de superar as dificuldade impostas pelo histórico mau planejamento urbano, por meio de investimentos em metrôs e ônibus, ampliação de ciclovias, melhoria das calçadas, e do desestímulo ao uso do carro, a partir de, por exemplo, pedágios eletrônico urbanos.