A crescente crise na mobilidade urbana brasileira
Enviada em 31/03/2021
Dentre as muitas percepções veementes de Victor Hugo, expostas no livro intitulado “As contemplações”, está a de que “o progresso roda constante sobre duas engrenagens: faz andar uma coisa esmagando sempre alguém”. Ao transcender estas palavras do poeta, dramaturgo e político francês para o cenário de desequilíbrio na mobilidade urbana brasileira, vemos a cultura da locomoção individual como agente limitante das iniciativas de transporte coletivo. Sendo assim, a conjuntura de historicidade na precariedade do transporte público e o despreparo governamental no planejamento das cidades acaba por explicitar ainda mais este conflito.
Desde o início da Era Vargas no Brasil (1930-1945), possuir um automóvel era vinculado ao seu status social, com isso, instigou-se uma cultura pejorativa na utilização dos transportes coletivos. Por conseguinte, o Governo Federal, seguindo a tendência social, não priorizou os investimentos no sistema público de locomoção, ocasionando assim, uma extrema defasagem em todo o sistema de deslocamento urbano. Como reflexo dessa política, temos a sobrecarga nas linhas de metrôs e ônibus que hoje não comportam todos os passageiros de forma confortável.
Ademais, é notório o despreparo no planejamento dos grandes centros metropolitanos, que por não possuir a capacidade de comportar um grande fluxo de automóveis, acaba congestionando e causando atrasos aos motoristas. À vista disso, é intuitivo a inobservância da Constituição Federal de 1988, em que é descrito no Artigo 21 e inciso XX o direito irrefutável a um sistema de transporte preparado para receber os cidadãos sem todas as mazelas que o despreparo pode causar. Posto isso, é estritamente necessária uma intervenção social de equidade nesta problemática.
Em virtude dos fatos expostos e em consonância às palavras aqui pautadas, conclui-se que precisa-se mudar urgentemente a cultura do individualismo nos transportes para que as iniciativas coletivas possam dominar a logística no deslocamento de pessoas. Assim, para ajustarmos essas “engrenagens” culturais históricas, é primordial que o Ministério da Infraestrutura crie, juntamente com os gestores municipais, uma ação para revitalização, e reestruturação dos meios de transporte público, em que seja feito um plano de recompensa para as cidades que conseguirem ampliar o número de pessoas usando um transporte público de qualidade. Quando conseguirmos alinhavar uma cultura coletiva de locomoção e sociedade, engrenagens essenciais para um bom funcionamento das cidades, conseguiremos tornar o deslocamento mais harmônico para todos os cidadãos brasileiros.