A crescente crise na mobilidade urbana brasileira

Enviada em 09/05/2021

Na música “Esquema Preferido”, do cantor brasileiro Tarcísio do Acordeon, o eu lírico afirma transitar por toda a cidade para ver o seu amor, locomovendo-se com facilidade dentro do perímetro urbano. Fora do universo artístico, percebe-se que essa facilidade de locomoção não representa a realidade problemática hodierna. Dessa forma, faz-se necessário discutir a questão da crescente crise na mobilidade urbana brasileira, sendo essa problemática agravada pelo sucateamento do transporte público e pelo desenvolvimento histórico da infraestrutura no país. Tal fato reflete uma realidade extremamente complexa no que diz respeito aos seus efeitos sobre a população nacional.

À priori, de acordo com a Teoria do Pacto Social, do filósofo francês Jacques Rosseau, os indivíduos confiam suas necessidades ao Estado, que deveria, em contrapartida, cumprir com seus deveres. Porém, tal conceito encontra-se deturpado na sociedade brasileira moderna, uma vez que o Poder Público mostra-se falho na responsabilidade de garantir transportes públicos coletivos de qualidade nas cidades. Destarte, sem os meios de locomoção adequados, os citadinos são coagidos a utilizar os veículos individuais, o que contribui para o travamento do trânsito e para a grande emissão de gases poluentes na atmosfera. Desse modo, urge que medidas sejam tomadas para superar tal inércia estatal.

Outrossim, de acordo com o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, a interpretação da realidade coletiva ocorre somente por meio do entendimento das forças que estruturaram o corpo social. Sendo assim, para entender a crise na mobilidade urbana, é imprescindível analisar o desenvolvimento histórico do país. Sob esse viés, o incentivo político à ampliação da malha rodoviária, feito durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek, levou ao aumento desenfreado da frota de veículos terrestres. Entretanto, tal ampliação não foi suficiente e não contemplou todos os municípios brasileiros. Assim, sem uma infraestrutura adequada e com um grande número de automóveis nas ruas, os congestionamentos tornaram-se um problema recorrente na vida citadina.

Diante do exposto, para superar a crescente crise na mobilidade urbana brasileira, medidas devem ser tomadas. Para isso, cabe ao governo federal, instância máxima da administração executiva, criar, por meio da utilização de verbas públicas, o Plano Nacional de Transportes Urbanos, o qual consistirá no maior investimento em transportes públicos, meios de locomoção sustentáveis e vias de circulação nas cidades. Posto isso, tais medidas teriam por finalidade incentivar o uso dos veículos coletivos por parte dos cidadãos e melhorar a infraestrutura viária nos municípios, o que ajudaria, consequentemente, a desafogar o precário sistema móvel nacional. Somente assim será possível construir um futuro melhor e a realidade tupiniquim tornar-se-á harmoniosa, tal como na música de Tarcísio.