A crescente crise na mobilidade urbana brasileira

Enviada em 01/08/2021

Sucateamento do transporte público. Falta de planejamento urbano. Cultura de valorização do carro particular. Diversos são os fatores históricos que acarretaram a ascendente crise na mobilidade urbana nas grandes e médias cidades brasileiras. Observa-se que esse contexto não só traz impactos na economia do país, como também no bem-estar individual e coletivo da população.

Nessa conjuntura, é necessário pontuar que as principais causas da morosidade do trânsito nas zonas urbanas se sustentam não apenas na má qualidade do transporte público - falta de conforto, falta de segurança, veículos sucateados - mas também na falta de estrutura para modais de locomoção alternativos. Historicamente, tal cenário é sequela de um processo de urbanização mal planejado, iniciado através do plano desenvolvimentista de Jucelino Kubitschek, que priorizou a indústria automobilística e a construção de rodovias. Entre os desdobramentos desse processo, nota-se a existência de uma cultura “carrocêntrica” em que as cidades são planejadas para favorecer o transporte automobilístico particular e os indivíduos são convencidos de que essa é a melhor forma de se locomover nos espaços urbanos.

Além disso, verifica-se que a falta de locomobilidade nas zonas urbanas traz consequências negativas que impactam os âmbitos social e econômico da sociedade brasileira. No primeiro, o estresse e o cansaço causados pelas horas perdidas em congestionamentos e a constante exposição à gases poluentes, eventualmente, podem acarretar doenças respiratórias, circulatórias e psicológicas, como trombose e ansiedade. No segundo, a produção de riquezas do país é afetada pela produtividade dos trabalhadores, reduzida em caso de atraso ou fadiga devido ao tempo perdido no trânsito, horas que poderiam ter sido utilizadas em atividades laborais, as quais gerariam renda e movimentação financeira.

Segundo o urbanista Enrique Peñalosa, uma cidade só será avançada quando ela tiver um transporte público eficiente. Nesse sentido, são necessárias, portanto, medidas para descontruir a cultura “carrocêntrica” e valorizar a utilização de transporte público no Brasil. Dessa forma, é imprescindível que o Ministério da Infraestrutura faça investimentos para a variedade dos modais de transporte nas cidades brasileiras, a exemplo do que foi feito por Enrique Peñalosa quando, então, era prefeito da cidade de Bogotá. Especificamente, é fundamental que não somente seja ampliada a estrutura para bicicletas e pedestres, recorrendo à expansão das ciclovias e calçadas, bem como seja feita a revitalização e a manutenção das frotas e das linhas de ônibus. Isso deve ser feito por meio de parceria entre o governo e empresas privadas que serão as concessionárias desse serviço.