A crescente crise na mobilidade urbana brasileira

Enviada em 23/08/2021

Consoante o geógrafo Milton Santos, o espaço geográfico é fruto da materialidade e da ação humana, responsáveis por estruturar o âmbito político-econômico e sociocultural no seio civil. Desse modo, a deficiente mobilidade urbana brasileira é reflexo da macroestrutura de hipervalorização do modal rodoviário, pautada no princípio individualista - germinada no governo de Juscelino Kubitschek - e da falta de infraestrutura efetiva e ampla em modais coletivos ou alternativos, como bicicleta e patinete. Portanto, tais fatores, devido à crescente morosidade de tráfego, são responsáveis por agravar a poluição ambiental, o âmbito econômico e a saúde dos seres sociais.

De acordo com o marxismo, os indivíduos são construtores da história, ou seja, são capazes de transformar as estruturas que permeiam a sociedade. No entanto, tais transformações nem sempre geram, exclusivamente, benefícios, como é o caso da abertura do Brasil ao capital externo, na década de 1950, e do intenso interesse das multinacionais pelo modal rodoviário, a fim de alimentar a indústria automobilística, responsáveis por privilegiá-lo no desenvolvimento de infraestrutura de transporte e por incutir, culturalmente, o hábito do automóvel próprio. Além disso, essa hipervalorização do transporte rodoviário, atualmente, é responsável por potencializar a poluição atmosférica e fomentar o desenvolvimento de problemas respiratórios, devido ao excesso de gás carbônico liberado - agravante do efeito estufa - o que compromete, ainda mais, a rede pública de saúde.

Por outro lado, pelo fato de os demais meios de transporte e de modais - ferroviário, hidroviário, dentre outros - terem sido relegados à margem dos interesses político-econômicos, sendo sucateados ou não tendo um desenvolvimento, aproveitável e amplo, de suas infraestruturas, contribuiu para a obstrução do fluxo de pessoas e de mercadorias nos centros urbanos. Dessa forma, a obstrução do fluxo urbano compromete o desenvolvimento econômico do país, na medida que dificulta o escoamento da produção e imobiliza a cadeia produtiva de capital, bem como agrava a saúde mental dos indivíduos, devido ao estresse e ao cansaço que a morosidade do trânsito submete-os.

Logo, a fim de que ocorra o fluir célere de mercadorias, de pessoas e de serviços, faz-se necessário que haja o desenvolvimento amplo e efetivo - orientado pelo Governo Federal, em parceria com as Secretarias Municipais de Transporte e Trânsito - das infraestruturas dos transportes coletivos e alternativos, por meio da ampliação das linhas de ônibus, de metrô e de ciclovias, priorizando a segurança e a qualidade de vida dos seres sociais. Não obstante, tais medidas só se efetivarão, por meio da integração, via bilhete único, dos diversos modais e da abrangente acessibilidade, física e financeira, aos transportes públicos.