A crescente crise na mobilidade urbana brasileira
Enviada em 18/10/2021
A canção “Pedro pedreiro”, de Chico Buarque, explora o fluxo de pensamentos de um proletário que aguarda o trem para a ida ao trabalho. Nela, percebe-se que Pedro se desespera pela vinda do trem, já que visa um aumento salarial e este pode ser comprometido, caso ele se atrase. A obra, dentre outros aspectos, ilustra um problema com o qual os brasileiros lidam na atualidade: a crise na mobilidade urbana. Nesse sentido, pode-se afirmar que esta é fomentada por uma conjuntura caótica de antagonismo entre os modais de deslocamento, além de escancarar a desigualdade social no Brasil.
Em primeira análise, convém destacar que, ao se pensar mobilidade urbana nas grandes cidades brasileiras, evidencia-se um cenário antagônico no modo que as pessoas utilizam para se deslocar: por veículo particular ou por transporte público. Este confronto se torna um desafio à mobilidade, na medida em que o transporte coletivo enfrenta uma precarização contínua, o que estimula a preferência geral pela modalidade individualizada. Como consequência disso, para além dos problemas ambientais devido ao aumento de carros nas vias, tem-se o congestionamento aumentado e o tráfego se torna ainda mais dificultoso. Tal processo de individualização do “modus operandi” dos cidadãos foi denominado como “solidariedade mecânica” pelo sociólogo Émile Durkheim, tipo de solidariedade que acomete às cidades industrializadas. Com isso, há a diminuição do senso de coletividade, o que aumenta o risco de anomia social — quadro nefasto em que o indivíduo se sente deslocado socialmente — e do colapso do corpo social.
Uma segunda análise parte da possibilidade de anomia social supracitada, visto que é uma situação influenciada, também, pela negligência do Estado para com os direitos dos cidadãos. Isto pois, de acordo com o Artigo 6º da Constituição Federal, o acesso ao transporte é um direito da população brasileira. Entretanto, as altas tarifas, bem como a escassez de linhas de ônibus e metrôs nas periferias, revelam que tal direito não é assegurado à grande parte da população. Nesse contexto, aqueles que moram mais afastados dos centros, como o Pedro, da canção, desperdiçam um tempo descomunal para se locomoverem, fato que expõe o abismo social presente na sociedade brasileira.
Depreende-se, por conseguinte, que urge a mitigação da dualidade entre os modos de transporte, para que se melhore a mobilidade urbana. Diante disso, seria interessante que os governos municipais, em parceria com fabricantes de automóveis, investissem numa frota robusta de ônibus e metrôs, por meio de concessões de parte das verbas tarifárias a essas empresas, durante um prazo limitado, a fim de que se melhore a qualidade do modal coletivo, de maneira a estimular seu uso pela população e democratizar o seu acesso. Se evitará, assim, um possível colapso generalizado.